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Não só um oceano de distância

11/05/2015

Old Boy é aquela história que fascina sem querer. Um enredo de ação com uma temática existencial, ou uma história ficcional com apelo real. Seja como for, a história prende a atenção do público não por ser genial ou cult, mas por ser bem contada.

Old Boy tem uma longa trajetória. De autoria de Garon Tsuchiya, a história foi publicada inicialmente em mangá, entre 1996 e 1998 no Japão. Narra a história de um homem que quer se vingar por ter sido refém durante 10 anos. A história foi transposta para o cinema em 2003 pelo cineasta sul-coreano Park Chan-wook. Em 2005, a editora estadunidense Dark Horse Comics comprou os direitos de Tsuchiya para publicar Old Boy em inglês. Já em 2013, o célebre cineasta Spike Lee também adaptou a história, agora para o cinema hollywoodiano. Tantos caminhos fez de Old Boy um sucesso internacional. Tanto a versão sul-coreana quanto a estadunidense foram aclamadas pela crítica. Mas é claro que as duas versões cinematográficas apresentam visões diferentes da mesma história, sobre a técnica e a estética. Na primeira versão, a sul-coreana, o diretor escolheu um estilo de filmagem onírica, com planos que se dilatam e saem do eixo constantemente. Tal escolha se deve, em grande parte das cenas, pela sensação conturbada que o diretor quis transparecer do personagem principal. A montagem bricolada também é recorrente na película. Essa técnica consiste em colar cenas sequenciais em plena panorâmica. Panorâmica que, aliás, é outro recurso visual recorrente no filme. Esses dois recursos,resenha Old Boy-2 a bricolagem e a panorâmica, evidenciam o aspecto psicológico da história. No enredo, as viagens psicológicas por meio da hipnose são características do desenrolar da trama, e os planos estendidos e sequenciais denunciam a fronteira tênue entre realidade e surrealidade. Isso é exemplar na cena em que o homem é libertado do cárcere, na qual ele está deitado na cama dentro de seu quarto-prisão e, após a hipnose, se vê repentinamente livre sobre uma grama externa.

O tema da hipnose, tão recorrente na versão sul-coreana, é excluída da versão estadunidense. A estratégia que Spike Lee utilizou para substituir as cenas de hipnose foi a televisão (hipnose tecnológica, diria Adorno). Para fazer com que a filha do homem se apaixone pelo pai, Chan-wook os hipnotiza; já para Lee, os dois são hipnotizados por um noticiário sensacionalista de televisão. Em outros momentos de hipnose, Lee prefere dar pulos temporais. Na última e derradeira hipnose, Chan-wook faz com que pai e filha continuem no desconhecimento e vivam seu romance; Lee acaba com o romance e faz o homem se prender novamente no cativeiro, agora por vontade própria. Essas diferenças dizem muito sobre as culturas em que os filmes são realizados. Para uma cultura dita oriental, o estado de transe da hipnose indica os limites entre o carnal e o espiritual, entendidos sob uma ótica espiritualista. No mundo dito ocidental, essa espiritualidade é substituída por explicações mais “racionais” como um objeto tecnológico para indicar subjetividades ou simples pulos no tempo. A ideia de cenas oníricas e sensoriais como as vistas na versão sul-coreana é inimaginável em filmes tradicionais de Hollywood. Um dos motivos é o tempo necessário para tais cenas. Um exemplo é a cena em que o homem relembra de seu passado no colégio. Na versão sul-coreana, essa cena se estende ao longo de 9 minutos de planos-sequência e cenas mudas; já na versão de Lee, a cena tem 5 minutos com cortes e intensa sonoplastia.

Na versão estadunidense, Old Boy traz algumas referências orientais que são nitidamente deslocadas e aleatórias. O ocidente é visto em alguns quimonos e no restaurante e comida que alimenta oresenha Old Boy-3 preso. Em todas as inserções orientais, as referências são prontas e sem continuidade com a história. Isso não chega a ser um problema, já que se trata de uma versão assumidamente ocidental. Somente alguns planos são filmados tendo como referência a matriz sul-coreana, sobretudo nos planos panorâmicos, como no da luta entre o homem e seus capangas.

Essas diferenças podem ser entendidas sob a ótica de autoria. Spike Lee é conhecidamente um diretor polêmico. Sempre atrelado a causas sociais e raciais dos Estados Unidos, seu enfoque ao refilmar Old Boy é desenhar um perfil psicótico/social de um americano comum, com as reviravoltas próprias desse cinema. Já para o cinema sul-coreano, o enfoque para Old Boy passa por uma análise mais psicológica do que social. O tratamento dado ao herói também é divergente. Para Chan-wook, o personagem principal é um herói sem glórias, aquele que mesmo quando vence (se redime) continua errante. Já para o personagem de Lee, o herói deve pagar as consequências de seus atos, para em um futuro próximo ou não, se redime e alcança sua plenitude heroica. Essas concepções se fundamentam na constituição mitológica de cada cultura (oriental e ocidental), para as quais as funções míticas são diversas (por mais que, por vezes, se entrecruzam).

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