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Enquanto isso, nos classificados…

07/02/2015

Há tempos comecei a prestar atenção no mundo do trabalho e percebi o quanto ele é complexo. Junto a isso, notei que anúncios de empresas procurando profissionais guardam a verdadeira essência do mercado empresarial. Me deparei com um desses anúncios dia desses. Tratava-se de uma agência de publicidade, anunciando uma vaga de estágio em Planejamento. Os requisitos padrão de criatividade/organização/proatividade logicamente estavam lá. Mas um requisito saltou e me chamou a atenção: ser heavy user de mídias sociais, Web a APPs. Me fez pensar: o que significa para o corpo de uma empresa querer alguém heavy user de internet? O que isso representa para o mundo profissional da comunicação?

Remontar toda a história da internet não convém para o espaço deste texto, nem para o conhecimento deste autor, mas o que é importante deixar claro é o óbvio, por mais que muitos esqueçam: a internet não é um bem social como educação, saúde, segurança. A internet é um produto, uma empresa com razão social e CNPJ. O substrato dela é um bem social: a comunicação. Quero dizer, a internet utiliza um bem social como moeda de troca: o Google Now entrega os nomes dos restaurantes próximos a você, e em troca você vê alguns restaurantes anunciantes na pesquisa. Se informar sobre os restaurantes próximos à sua casa é um direito, uma questão de comunicação, que o Google, uma empresa, facilitou. Colégios particulares são empresas que disponibilizam seus serviços para educarem os filhos de seus clientes; planos de saúde são empresas que vendem consultas e exames para proverem saúde e bem estar de seus clientes. A internet facilita processos, mas a partir de um dado momento, ela começou também a criar processos.

Grandes monopólios de empresas ligadas ao ambiente virtual instigam seus clientes às interações sociais em diversas esferas: os smartphones e a recente internet das coisas são exemplares, pois levam a interação online a quase todos os processos da vida, desde saúde e educação até consumo e política. No entanto, essas inovações são produtos vendíveis, mesmo que seu acesso seja gratuito. O acesso ao Facebook é pago com as informações que o usuário entrega ao banco de dados que por sua vez são acessíveis a empresas e aplicativos, que os utilizam para anúncios e estratégias de marketing. Nunca as informações e dados pessoais valeram tanto. Não à toa que as mídias sociais têm grande apelo por conteúdos pessoais. Ou seja, usuários de mídias sociais são também operários, produzem o conteúdo que move toda a estrutura desse tipo de uso da internet. Ou seja, o faturamento desses monopólios depende do uso massivo de seus produtos; consequentemente, trabalharão para que um ambiente de heavy user se instaure como natural e inevitável.

Com tudo isso, quero dizer que quando uma agência de comunicação quer contratar um heavy user de mídias sociais, Web a APPs para compor seu quadro de funcionários, ela espera um especialista em produtos específicos da internet, e não um especialista na vida social da internet. O que algumas empresas esperam de comunicólogos é que sejam usuários de mídias sociais, e não produtores de mídias sociais. E essa é uma diferença importante. Um funcionário que usa mídias sociais é um funcionário passivo em relação ao que usa, é o usuário comum, que não projeta a internet como um processo. Sim, todos somos usuários comuns. Então, qual a diferença de um profissional de comunicação frente aos usos da internet? Advogados advogam e usam a internet. Engenheiros constroem e usam a internet. Médicos operam e usam a internet. Comunicólogos usam a internet e só? Para muitos contratantes sim. Mas o que deveria diferenciar o profissional de comunicação em relação às outras profissões não é o uso, mas a inovação.

Comunicólogos deveriam ser profissionais que inovam, que propõem novos usos para a internet, novos produtos, uma vez que produtos morrem e nascem a todo momento. Infelizmente, esse mundo ideal existe em polos concentrados que dispõem de um mercado inovador e um sistema educacional tradicionalmente evoluídos como nos E.U.A e na Finlândia. Enquanto tivermos um sistema formativo que escolhe técnica ou humanismo, um mercado profissional que busca operários de comunicação e profissionais que se especializam em produtos, a inovação continuará em polos concentrados ou sendo exportada para esses.

* O jornalista Carlos Castilho publicou no portal Observatório da Imprensa o artigo Estamos hipotecando nosso futuro ao Arquivo Internet, que ilumina muitas das interrogações e reticências que ficaram.

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