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Da mania de escolher

06/05/2014

Aquele momento difícil, em que você se vê obrigado a escolher um sapato em uma vitrine fartamente alimentada. Que critérios utilizar para a escolha? Como diminuir a incerteza? Você experimenta o máximo de modelos possível para não restar dúvidas e descarta, seguindo vários critérios, os que não se adequam a esses parâmetros. Independentemente da escolha, a única certeza que você tem é que vai se arrepender e pensar no outro calçado durante meses. Você pensa que o ideal é utilizar um calçado durante dias, depois trocá-lo pelo outro. Em quantas situações você não quis experimentar uma vida antes de uma derradeira decisão? É exatamente o que Irina McGovern fez em O mundo pós-aniversário (2007), romance da escritora estadunidense Lionel Shriver.

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Irina é uma ilustradora de livros infantis que tem uma invejável e sólida vida matrimonial com Lawrence Trainer, um homem intelectual e seguro de suas convicções que trabalha para um renomado centro de estudos estratégicos. Os dois ostentam uma vida exemplar, uma relação confiante e respeitosa, com direito a pequenos agrados no fim do dia e longas conversas sobre a rotina de cada um. Uma vida tranquila para qualquer padrão, não fosse o desejo incontrolável que atingiu Irina: beijar o amigo do casal, Ramsey Acton, um ilustre jogador de sinuca.

É a partir desse ponto do romance que Irina desbrava suas chances de permanecer com sua vida estável ao lado de Lawrence ou se aventurar junto a Ramsey. Através de capítulos intercaláveis, a personagem pondera os desfechos de suas ações quando escolhe um ou outro.

Para muito além de um jogo de perdas e ganhos, o questionamento de Irina é: em um momento em que tenho duas possibilidades igualmente interessantes, Lawrence e Ramsey, que vida escolher? Dois homens tão diferentes que podem me dar vidas tão intensas, cada um a seu modo, como me decidir?

Em primeiro lugar, Irina não julga o perfil de seus amantes por conceitos como carinho, atenção, educação, afinidade, intimidade. Seria leviano de sua parte, já que os dois são igualmente admiráveis e dignos de sua escolha. É evidente que sua vida toma caminhos diferentes em cada escolha, mas em nenhum momento são plenamente autônomas. As “vidas possíveis”, por mais que estejam em capítulos alternados, se entrecruzam, estão em relação. O ideal binário do julgamento maniqueísta não se aplica à vida de Irina. Eis uma das maiores riquezas do romance.

Engana-se quem acha que a natureza da escolha é algo simples e passível de resposta exata. Escolher significa, necessariamente, optar pelo A e desistir do B. Irina nos diz que, apesar dessa última afirmação ser uma evidência, o B sempre estará subentendido em A, já que esse não existe em absoluto, só em relação (é A porque existe o B). Se Irina diz que ama seu marido Lawrence, é porque não ama tanto seu amante Ramsey, mas o admira. O mesmo acontece nos capítulos alternados. Não se trata de escolher o branco ou o preto; é a confusão do listrado.

É como a literatura: quando chega ao rio, percebe que é beira.

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