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Enquanto Tudo Derrete

02/02/2014

X é uma promissora cidade no interior do estado de Curitiba. Com apenas 66 anos de idade, já é considerada, segundo a revista Olhe, uma das melhores cidades brasileiras para se viver, com invejáveis índices de desenvolvimento humano e social. Possui um dos maiores pólos de plantio de soja do país, exportando para todo o Mercosul, China, Índia e Turquia. É também da cidade X uma das mais conceituadas universidades do país. A construção civil se desenvolve de maneira olímpica, fazendo da cidade X um riquíssimo canteiro de obras. A cidade X goza de uma tranquilidade atípica para os padrões brasileiros. Não há notícias de assassinatos, roubos, estupros e suicídios. A cidade X é, como metaforizou o poeta popular, uma casa no campo, mas com a positividade que a tecnologia, a indústria e o comércio trazem. Porém, quem olha a verde e proeminente cidade X não imagina as misteriosas histórias que a rondam.

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Cidade X. foto: Gabriel Santin

Tudo começa no longínquo ano de 1932, época em que o território do que se entende hoje como a cidade velha foi palco de uma sangrenta batalha entre os indígenas nativos e os fazendeiros colonizadores. Na batalha, a população indígena foi dizimada e seus corpos foram enterrados no vermelho solo da cidade X. Ao longo das décadas seguintes, as complexas ocas foram paulatinamente sendo substituídas por casas seriadas de madeira com marquises; os rituais substituídos por paradas na Avenida dos Banguelas; as histórias ao redor da fogueira por filas nas casas de dança. Mudanças que muito agradaram os novos habitantes da cidade X, mas não os antigos nativos. No início da década de 1950, um fenômeno começou a preocupar a pacata população da cidade X: os termômetros começaram a se abalar. De setembro de 1951 a janeiro do ano seguinte os termômetros aumentaram 35% a média de temperatura em relação a décadas passadas. Ao mesmo tempo, a chuva ficou rara na cidade X. Não choveu, efetivamente, de abril de 1952 a outubro de 1959. Chuviscos, quando caíam, faziam o ambiente abafar. Chegando aos anos de 1960, o comércio fazia fortuna com os recém chegados ar condicionados domésticos. Com o passar dos anos, a situação virou pandemônio, e a ciência foi desengavetada para ajudar na compreensão do fenômeno. Em fevereiro de 1969, muitos estudos foram feitos pelos geólogos, biólogos, químicos, físicos e astrônomos da universidade local, mas nada parecia motivar tal situação adversa. O tempo passava lento devido a sensação de dilatação espacial, enquanto os estudos eram feitos, em vão. Em um dos verões de 1970, o trabalho dos cientistas, já desmotivados, foi misteriosamente interrompido. Um acidente matou toda a comitiva científica que estava instalada na Avenida Nacional, a principal da cidade X. Tratou-se, segundo o comandante do corpo de bombeiros, de uma autocombustão da tenda em que os cientistas estavam reunidos desde o início dos estudos. Um clima de tensão tomou conta da população, que começou a tomar medidas drásticas e desesperadas como se reunir em baixo dos coqueiros da praça da igreja central, comprar carros para evitarem a caminhada, adquirir cotas em clubes com piscinas coletivas e passear em supermercados com clima refrigerado. Na década de 1970 os primeiros prédios residenciais despontaram pela cidade X, o que obrigou as construtoras a cavarem grandes fossos na vermelha terra e estacarem os pilares de concreto que sustentariam os prédios. Para surpresa e desdém dos cidadãos da cidade X, foram encontradas ossadas dos nativos indígenas que haviam sido enterradas ali pelos colonizadores rurais. Nessas, estava cravada, na língua nativa, uma maldição tribal que condenava o povo colonizador a sofrer com o calor eterno. Com riqueza de detalhes e traduzida por exímios linguistas da universidade X, a maldição praguejava ainda sobre o movimento das nuvens que, ao chegarem a 10 km da cidade X, desviariam para outras regiões. Extinguiria também a distinção entre inverno e verão, sendo essa uma noção preservada apenas nos livros didáticos. De repente, como em um retorno hipnótico, a cidade X se tornou mais tranquila e os anos passaram com mais leveza, mesmo com o vapor do asfalto ondulando pelas ruas e o oxigênio entrando quente nas narinas sem nenhuma explicação. Desde o fatídico episódio, os habitantes da cidade X, crentes fervorosos do totem uno, ficaram mais confortados e o clima passou a não ser mais um problema, já que agora tinham algo a balizar suas vidas: um mito.

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