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Amor e Sexo II

08/10/2013

Já foi falado nesse blog sobre o suposto caráter revolucionário do oscilante programa global Amor e Sexo. Agora, a atração chega à sua última temporada tentando inovar a revolução, mas parece que a receita da emissora pede conservantes além da medida.

O primeiro programa dessa última temporada foi ao ar na noite da última quinta-feira (3). O tema central era, para o espanto da minoria, nudez. Logo no início, alguns integrantes da equipe do programa desfilaram nus no palco. Como a própria direção do programa disse, uma nudez “política”. A atração foi rápida, com exibição do nu frontal em flashes. Alguns sites e blogs noticiaram o tal progressismo da Globo como uma grande audácia. No entanto, pouco se repercutiu nas mídias sociais, sendo a nudez, para aqueles usuários, menos relevante do que Zeca Camargo dançando no Programa do Jô. Por que hoje os canais tradicionais de televisão não conseguem mais chocar o público com o corpo nu?

Imagem

Suposta nudez no programa Amor e Sexo

Em primeiro lugar, o corpo passou por uma espécie de pasteurização com a sua reprodução industrial. Esquenta-o com apelos incisivos à potência, ao erotismo, à violência, ao descarte para então esfriá-lo com a reprodução desses valores em alta escala. Já é comum a constatação que os “jovens estão cada vez mais precoces” devido ao alto estímulo sexual. O corpo, para um adolescente de 13 anos, não é mais um objeto de desejo escondido em lingeries, mas sim um monumento disponível aos olhos a qualquer instante (programas de auditório) e em qualquer lugar (internet). Não quero interpretar aqui as possíveis implicações nefastas que isso pode trazer ao desenvolvimento social humano, apenas indicar prováveis caminhos que nós mesmos estamos a traçar.

Em segundo lugar, o discurso de naturalizar o corpo é interpretado de maneira aleatória. A ideia de corpo biológico, com sua anatomia e organicidade, é preservada e estendida à ideia de corpo sensual, com seus sentidos e gestualidades. A evidência dessa naturalização pode ser vista justamente na atração inicial de Amor e Sexo: o corpo deve ser habitual, algo tão comum quanto nossas roupas ou o penteado de cabelo que usamos. Ora, algo está errado: se o corpo é, simultaneamente, sentidos e orgânico, físico e gestual, biológico e sensual (para dizer o mínimo), por que deve ser “livre”, “normal”, “sem censura”, “despudorado”?

Fica claro que o que está em jogo é a definição de corpo e seu uso. Em um programa relacionado a sexo, o corpo é instrumento, por mais que Fernanda Lima diga o contrário. Desse modo, querer neutralizar o corpo num ambiente em que é necessária sua instrumentalização me parece um grande equívoco. As pessoas nuas no palco surgiram de luxuosas plumas ostentadas por modelos engravatados, como em um cabaré. O corpo biologicamente nu estava envolto em sensualidades.

Por fim, como no texto citado no início, continuo a me questionar sobre a pertinência do sexo em programas televisivos. A intimidade como mídia vem sendo amplamente difundida nos dominicais, nos especiais jornalísticos e nos entretenimentos televisivos. No entanto, trata-se de uma intimidade caricata, reduzida a funções a serem executadas. Falar de sexo em programas como Amor e Sexo é elencar ações a serem feitas pelo sujeito a fim de conquistar seu objetivo. Assim, sexo pode ser ensinado.

E o verbo se fez carne.

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