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A mudança de toda a nossa democracia continua

13/09/2012

O Tribunal Superior Eleitoral divulgou, na última semana, a segunda parcial de prestação de contas dos candidatos que disputam as eleições no próximo mês. É possível consultar as receitas e despesas declaradas das campanhas até o momento. E são nas receitas que a cortina se abre para o espetáculo político. É nessa consulta que podemos conhecer quem são os doadores de campanha; pessoas ou entidades civis que financiam os gastos, sobretudo publicitários, dos candidatos e seus partidos.

Em Maringá, os dois candidatos que disputam a frente da corrida eleitoral são os que mais arrecadam doações. Não por acaso, Ênio Verri (PT) e Roberto Pupin (PP) são os que mais fazem uso das intervenções publicitárias nas ruas e nos meios de comunicação.

Ênio Verri já foi secretário municipal na gestão petista de José Cláudio e deputado estadual por duas legislaturas. Porém, o cargo de destaque do candidato foi o exercido no primeiro governo Lula, em 2005. À época, foi convidado pelo ministro Paulo Bernardo a chefiar o gabinete do Ministério do Planejamento. Tal posição garantiu maior articulação junto às empresas do setor de infraestrutura e construção civil, área piloto de qualquer política maringaense. Foi durante esse mandato que Verri e Bernardo estabeleceram relações mais estreitas com a construtora Sanches Tripoloni. O interesse de ambos na amistosa aproximação foi comprovado alguns anos depois com a denúncia de que a construtora teria sido beneficiada em licitações para obras no Paraná. Na denúncia, veiculada em grande parte da imprensa nacional, a Sanches Tripoloni ganhou inúmeras licitações no estado graças à boa relação que possuía com certa bancada política da câmara dos deputados estaduais e com o governo federal. Assim, a construtora viu a soma de seus contratos com o DNIT aumentarem de 20 milhões para mais de 260 milhões de reais no governo Lula. Para retribuir os bons frutos, a construtora passou a disponibilizar seus aviões particulares para que os colegas deputados e amigos ministros pudessem desfrutar de maior comodidade em suas viagens. Além disso, passou a doar quantias milionárias para campanhas eleitorais no estado, como a de Gleisi Hoffmann, ex-candidata petista a governadora e esposa do ministro Paulo Bernardo e a de Ênio Verri, atual candidato a prefeito de Maringá.

Não por acaso, os doadores de campanha de Verri são constituídos, em grande parte, por empresas dos ramos da construção civil e imobiliária, não só de Maringá, mas também de São Paulo e do Rio de Janeiro, como a UTC Engenharia e a Construtora OAS, essa última responsável pela reforma e ampliação do Stadium Rio e construção do Sambódromo do Rio de Janeiro. Somadas, as doações dessas empresas ultrapassam os 250 mil reais. Com o crescimento olímpico da construção civil na cidade, não é de se estranhar que tais empresas tenham interesse em manter vínculos políticos com Maringá. Menos estranho ainda será ver essas mesmas construtoras ganharem licitações unanimemente e ter obras embargadas por denúncias de irregularidades, como o anel viário norte, construção da Sanches Tripoloni.

Ênio Verri discursa para trabalhadores da construtora Sanches Tripoloni, responsável pelas obras embargadas do anel viário norte (do blog Fábio Campana).

A campanha de Verri parece ter levado às últimas consequências a premissa contemporânea do impacto social dos meios de comunicação. O seu comitê mantém uma central de telefonistas aptas a ligarem para a lista telefônica inteira a fim de “fazerem questionários” a respeito dos eleitores em potencial. Além disso, seus cabos eleitorais promovem constantes eventos e enquetes no Facebook para alcançarem seus objetivos de permuta.

O maior doador individual de Verri é Ricardo Benedito Oliveira, diretor geral da Faculdade Ingá, que repassou 185 mil reais para a campanha petista. O total de receitas declarado pelo candidato chega a quase 565 mil reais.

Já Roberto Pupin não tem uma carreira política tão agitada. Aliás, essa carreira é praticamente inexistente. Ocupou seu primeiro cargo político em 2004, como vice do ex-prefeito de Maringá, Silvio Barros, cargo esse que exerceu durante as duas gestões em que Barros foi eleito. O elo entre Pupin e Barros não se restringe só ao partidarismo político. Parece evidente o desejo de Barros e sua família em continuarem à frente da prefeitura, aliás, é publicamente evidente. Recentemente, o irmão de Silvio, Ricardo Barros, declarou em entrevista que vigia de perto as ações da prefeitura e intervém quando acha necessário, sem culpa. Foi nessa mesma entrevista que tentou, diante da imprensa, se eximir da acusação de ter privilegiado a Meta Propaganda em licitações públicas na cidade.

Por falar em publicidade, a campanha eleitoral do candidato da família Barros é um deleite para análises comunicacionais. A começar do slogan “A mudança continua”. Além de deixar clara a intenção de perpetuação dos Barros na administração municipal, o título de campanha soa como uma contradição: mudanças acontecem para melhor ou para pior; se algo continua não é mudança, mas sim continuidade. É possível forçar a análise e pensar que haverá uma continuidade das mudanças ocorridas nos últimos oito anos. Sendo assim, haverá um terceiro mandato? Eis a acusação que o TSE faz à candidatura de Pupin. Ele está com a candidatura impugnada e corre o risco de, se eleito, não poder assumir. Seu vice, Cláudio Ferdinandi (PMDB) também teve a candidatura impugnada por irregularidades na prestação de contas entregue ao TCE.

Com a candidatura limpa ou não, Pupin protagoniza cenas pitorescas na sua corrida eleitoral. Para promover as intervenções nos bairros, um caminhão de som corre as ruas com o imperativo chamado “venha participar da grande marcha da vitória!”. Pelo que se percebe, vitória antes da disputa sem nem saber se poderá disputar é realmente uma modalidade que as políticas eleitorais, tão desenvolvidas no nosso democrático país, talvez não possam controlar. Sem contar no bizarro apelo ao eleitorado infanto-juvenil que, até onde a justiça eleitoral sabe, não vota.

As receitas da campanha de Pupin também se revelam interessantes. Além das doações feitas pela fraternal família Barros (soma de 100 mil reais), empresas como a Ribeiro Pneus doam, sozinhas, valores que vão de 20 a 100 mil reais. A campanha eleitoral de Pupin também recebeu doação de uma instituição de ensino: o Centro Universitário de Maringá doou 80 mil reais para colaborar com os gastos de campanha. O valor total de doações que foi declarado pelo partido do candidato ultrapassa os 518 mil reais.

Como se viu, o arranjo político da eleição maringaense deste ano (como em inúmeras outras cidades, evidentemente) é muito claro. Os dois candidatos que estão à frente nas pesquisas entregaram ao TSE, com a prestação de contas, seus planos de governo: governarem privativamente. Ledo engano para aqueles que entendem o “público” da política como o convir “social”. Há várias gestões, Maringá está entregue à sorte do tempo, enquanto governantes estipulam estratégias privadas para benefícios particulares. Exemplos não cansam de se mostrarem diariamente: a completa ausência de conservação dos parques florestais, a entrega de entretenimento e programação cultural de péssima qualidade à população, o sucateamento total das bibliotecas municipais, a inoperância do único teatro público da cidade, a inabilidade com políticas de planejamento urbano que, em conjunto, formam uma sensação generalizada de que Maringá é uma cidade fantasma, habitada por muitos carros, arranhada por muitos tijolos aleatórios e governada por ninguém (por ninguém eleito democraticamente, pelo menos).

As doações feitas a ambos os candidatos mostram a preocupação privada (oposto de pública) em desenvolver projetos e a disposição dos candidatos em ficarem presos a isso por quatro anos. Compreensível que hoje não há esfera que não seja pensada sem a perspectiva privada e seus braços estendidos por toda a sociedade. Porém, a política ainda deve ser a esfera promotora de bem social público. Do contrário, suspendam a democracia!

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