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Do vermelho da vida ao verde veneno

07/08/2012

“É pensável que toda a linguagem não seja feita, senão, para pensar a morte que, com efeito, é a coisa menos pensável que seja” – Lacan

Existem coisas que temos certeza, são indubitáveis. Dentre essas coisas, existem as que preferimos ter certeza para não abalar o equilíbrio aparente. A maternidade talvez seja a principal delas.

Por volta do ano de 427 a.C., Sófocles já trazia na tragédia Édipo Rei as relações maternais para o círculo da arte. No correr da história, autores que exploraram essas relações muniram-se de algumas metáforas e símbolos para representá-las, como a transgressão de Peláguea Nilovna como símbolo de revolução política em A Mãe (1907) de Máximo Gorki ou a superproteção com víeis psicanalítico da The Supermãe (1996) de Ziraldo. Sem contar as inúmeras pinturas, estátuas e fotografias ao longo da história da arte, desde a estatueta de Willendorf do paleolítico até o retrato materno de James McNeill Whistler da era Vitoriana. Apesar das aparentes diferenças, há uma via que agrega grande parte dessas obras em uma única unidade: o mito da criação.

O ato de criar sempre esteve atrelado, direta ou indiretamente, às deusas, às mães. Ou seja, tanto nas divindades míticas quanto nas relações sociais humanas, as mães são criadoras de essência, o que, em muitas vezes, precede a ação criadora primordial de Deus. Considerando a narrativa da criação do homem no livro de Gêneses, temos o ser humano sendo criado do barro: “Mas da terra saía uma corrente de água que regava o chão. Então, do pó da terra, o Senhor formou o ser humano. O Senhor soprou no nariz dele uma respiração de vida, e assim ele tornou um ser vivo” (Gn 2:6-7). Na antiga Roma, a terra era cultuada como mãe (tellus mater). Podemos inferir então que Adão foi criado a partir de substância materna.

Dead Mother de Egon Schiele (1910).

A maternidade necessária para as deusas criarem está, em várias culturas, ligada também à criação artística. As funções de criação vital e poética convivem em um mesmo símbolo. No hinduísmo, por exemplo, a deusa Sarasvati é aclamada como a personificação feminina e esposa do deus criador Brahma, e é a ela calcado o epíteto de criadora da escrita brahmi, além de ser a deusa da sabedoria e protetora dos artistas. Na mitologia suméria, a deusa da fertilidade Nidaba é também honrada como deusa da escrita, a que criou a escrita cuneiforme, uma das mais antigas que se tem conhecimento, datada de cerca de 3500 anos a.C.

Minha Mãe se Matou sem Dizer Adeus de Evandro Affonso Ferreira (2010).

Criação e maternidade, desse modo, podem gerar obras que fomentam discussões ontológicas e que fundamentam a essência de certos sentimentos arraigados em nossa civilização. É o caso do livro Minha Mãe se Matou sem Dizer Adeus (2010) de Evandro Affonso Ferreira. Nele, o narrador-personagem, absorto enquanto escreve suas próprias memórias, observa as pessoas ao redor através de sua “mesa-mirante”. Movido pela melancolia causada pela morte repentina da mãe, discute sobre a dor existencial e os alcances e limites de suas palavras, metáfora da própria obra de arte. O narrador se angustia com o passar das páginas, lamentando e protelando o fim próximo de sua escrita. Mas assim como a morte de sua mãe, o fim de seu livro é penoso, um fardo tão insustentável como a consciência terrena da morte. Assim, o verbo é o único elo do narrador com a vida: “A vida é ruim; eu sei. Mas ainda não vou cortar a teia da própria vida feito ela minha mãe: o vocábulo é minha âncora”. O seu sentimento de orfandade é a ausência de sentido e amparo no mundo, o seu inverso é naturalmente a maternidade, a âncora. As palavras raramente se mostram; chegam ao final sem serem aproveitadas completamente, como a mãe do narrador, suicida que não deixa sequer uma linha escrita. A inexistência da carta-suicídio da mãe entrega ao decrépito personagem a condição inexorável da morte e a impotência da linguagem em relação a ela. Ao mesmo tempo em que o verbo é âncora, é pela sua ausência que o narrador desaparece (sem dizer adeus): “Sei-sinto-pressinto que não conseguirei concluir este livro que a exemplo dos outros não completará a tríade começo e meio e”.

Há também no cinema a mítica discussão sobre o paralelo arte e maternidade. Xavier Dolan, em sua estreia como roteirista e diretor no filme Eu Matei a Minha Mãe (2009), exibe os impulsos (às vezes) criativos que Hubert tem devido aos choques com sua mãe, Chantele.

Hubert, um jovem de 17 anos, fica atordoado pelo gosto kitsch, pelo comportamento despretensioso e pelo requeijão no canto da boca de sua mãe. Tudo o distancia dela, apesar das constantes tentativas de ambos se aproximarem. Há uma vida paralela na qual o jovem tenta se ancorar: a com o seu namorado, Antonin. Hubert prefere frequentar a casa de Antonin, onde pode fumar maconha e entrar em contato com Coco Chanel, James Dean, Gustav Klimt e com o mundo permissivo proporcionado pela mãe de Antonin, Hélène. O que há entre Hubert e Chantele, além do abismo afetuoso, é a debilidade materna; a morte da mãe é desejada pela inoperância dessa em seu exercício. Mais uma vez é o sentimento de orfandade que guia o personagem na obra. Nas aulas de artes, o jovem cria em suas pinturas o que prefere não expor a sua mãe: o substrato de que ele é feito, a própria mãe. Na cena em que Hubert e Antonin fazem uma pintura gestual juntos, a linguagem artística se imbrica com a linguagem sexual para dizer sobre o silêncio que repousa entre Hubert e sua mãe acerca da homossexualidade do filho. A arte, aliás, é a linguagem que o jovem utiliza para perceber a si próprio. Odiando a mãe, ele percebe que sua fraqueza é o próprio ódio, já que ao longo do filme, ele se compreende como criação: “Não há outra coisa que matar nesta vida que o inimigo interior, o duplo no duro núcleo. Dominá-lo é uma arte. Até que ponto somos artistas?”.

Independentemente das circunstâncias, é a maternidade que ainda cria a nossa existência, toda essência ainda vem do sopro primordial. Pensar nela e em seus desdobramentos é perceber a si mesmo no mundo. A criação é a âncora do criador. Talvez seja por isso que o narrador de Minha Mãe se Matou se prendia com tanta energia à sua escrita e Hubert reclamava tanto o elo materno em suas pinturas.

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