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Roupa sem costura

15/05/2012

Há exatamente 1 ano, escrevia sobre a comemoração dos então 64 anos de Maringá. E infelizmente, como naquela data, o tom não será festivo. Ontem, dia 14, quer dizer, na última quinta-feira, dia 10, a cidade completou 65 anos de fundação. O tradicional desfile cívico, desde o ano passado, é comemorado no período da noite e na mais remota e central avenida da cidade, a Horácio Racanello. Além disso, passou a ser temático, recebendo carros alegóricos, bailarinos e até composição musical própria. O tema desse ano, seguindo um bom discurso de economia hegemônica, foi “Maringá fazendo moda”, em referência ao grande pólo têxtil da cidade (?).

O desfile começou pontualmente às 18hr, depois da chegada do governador Beto Richa e sua comitiva de carros blindados. Como de costume, a bancada política estava meticulosamente presente: o primeiro secretário da câmara de vereadores, Heine Macieira (representando o oculto presidente da câmara, Mário Hossokawa), o deputado estadual e futuro candidato da oposição à prefeitura da cidade, Enio Verri, e o prefeito em exercício, Roberto Pupin. Esse último, empossado no começo do mês devido à aprovação do pedido de licença do prefeito, era constantemente evocado como “o prefeito Roberto Pupin”. Inquestionável a genialidade da manobra: fazer campanha eleitoral muito antes de a campanha eleitoral começar.

Como manda a tradição, a primeira ala foi destinada aos militares do tiro de guerra, seguido do comando policial e corpo de bombeiros. A banda militar encarregava-se de dar o tom da marcha, apesar de ouvirem-se ao longe alguns ruídos vindos das caixas de som. Após o desfile militar, como se houvesse uma cisão, o locutor anuncia com ânimo florescente que o governador entregaria um presente à cidade: a chave do novo caminhão anti-incêndio para o aeroporto. Então, o governador e o prefeito em exercício desceram da bancada (seguidos de uma barba de políticos e jornalistas) e se posicionaram ao centro da avenida para a entrega da chave, isso mesmo, uma solenidade dentro da solenidade. Depois de um breve discurso de Richa e Pupin e saudações aos eleitores presentes, a banda oficial do desfile executa seus primeiros acordes, acompanhando a entrada das alas temáticas. Bailarinos, acrobatas, pernas de pau e dançarinos encenam a produção da moda na cidade (ou seria da região?).

Desfile cívico em comemoração aos 65 anos da cidade de Maringá – Foto: Adriano Gatto

Como no desfile de 2011, a ala temática é imponente, grandiosa em tamanho e beleza. Fato esse incontestável. Carros alegóricos representando as estações do ano e seus respectivos vestuários, bolhas de sabão, fumaça com cheiro de flores, cavalo de isopor com colar de brilhantes falsos. Tão fascinante que era impossível parar a atenção dos olhos para aplaudir. Quando o último caminhão da ala temática passou, a trilha sonora oficial do desfile repentinamente para e a avenida fica vazia. O locutor engancha rapidamente um lembrete, que o desfile não havia terminado. O que antes era um som ruidoso nas caixas de som se torna agora batidas frenéticas de tecnogay. Era a outra fatia do desfile que minguava nos bravos representantes das escolas municipais e outras entidades públicas e privadas da cidade. O volume do som oscilava nos momentos em que o locutor falava, e somente nesses. Nem quando a banda da APAE desfilou alinhadamente seus instrumentos de sopro e bateria Madonna e Jennifer Lopez deram trégua. Os escoteiros tiveram que se concentrar para marchar ao som de “Banho de Lua” remixada.

Mas como no desfile do ano anterior, o verdadeiro valor cívico do desfile estava na identificação do público com as instituições mais populares e simples, como o grupo de carros antigos e o grupo folclórico português. No momento em que o Opala passava ou que as saias, lenços e brincos portugueses desfilavam, era como se o passado real da cidade se conjugasse com o momento atual, havia a história sensível ali. Ou seja, os recursos que a secretária de cultura, Flor Duarte, tão incansavelmente angariou e aplicou nos grupos de balé, dança e teatro não foram o bastante para ofuscar a história e certo brilho particular de quem desfilou pela simples manutenção da memória coletiva.

É certo que uma comemoração cívica não é lugar para tratar de sentimentalismo coletivo, mas também não é lugar para tratar de conchavos partidários. Como disse há um ano, a comemoração é dos cidadãos, se trata de um direito público, não de um favor político. O desrespeito ao bem cultural da cidade é tão nefasto e devastador quanto qualquer atitude corrupta e incauta dos políticos.

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