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Jaz(z) em você

29/04/2012

Imaginário sobre Belchior: rapaz latino americano e bigodudo que fugiu para o Uruguai. Certíssimo, mas não só.

As últimas notícias sobre Belchior são de 2009, quando uma equipe de reportagem do programa Fantástico da Rede Globo seguiu rastros e o encontrou em um vilarejo no Uruguai. Havia dois anos que o cantor não entrava em contato com a família e com os empresários. Mas como o próprio cantor afirmou na entrevista concedida a Sônia Bridi, “não tenho o menor interesse pela vida privada de nenhuma pessoa”. Assim, estarão aqui expostas divagações sobre o cantor e compositor e não do artista endividado e encrencado com a ex-mulher. Quem quiser saber da vida de Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes use o Twitpic abaixo.

A discografia de Belchior é consideravelmente extensa. São 13 discos, sem contar as coletâneas, compactos e discos ao vivo. Longe de fazer uma análise demorada e conclusiva sobre as obras, vou me ater ao disco Objeto Direto lançado em 1980. Retomando o imaginário sobre o cantor, quando pensamos em Belchior dificilmente pensamos em música, mas em discurso falado; não em canção, mas em texto. Tanto que as paródias feitas ao seu respeito quase sempre o retratam como um declamador, sem muita melodia. Isso porque, em suas criações, Belchior canta recitando, evidenciando seu material mais precioso: a palavra. Parece que em Objeto Direto, o cantor consegue unir o que estava separado nos discos anteriores: a palavra e a música. Em Alucinação (1976), as canções são predominantemente recitadas; mais ainda em Coração Selvagem (1977). Nesses dois discos, a palavra cantada de Belchior parece domada pelo método À Palo Seco. Ouve-se uma voz que quando sai pelo outro ouvido, recua, não sai. Imagens intensas que não permitem o descuido, muito menos o recesso.

Ano passado, apesar da dor e do silêncio/eu cantei como se fosse morrer de alegria/Hoje, eu lhe falo em futuro e você tira o revólver/puxa o talão de cheque e me dá um bom dia (Clamor no Deserto).

Pela geografia, aprendi que há, no mundo/um lugar, onde um jovem como eu pode amar e ser feliz/Procurei passagem: avião, navio…/Não havia linha para aquele país (Caso Comum de Trânsito).

As melodias servem de pano de fundo ao canto que Belchior entoa solene e incisivamente. Já em Objeto Direto, palavra e melodia se juntam. Não digo que a palavra tenha sido nivelada ao tom da melodia, mas as composições do cantor, incontestavelmente, passaram a representar o discurso através de um lirismo mais complexo e elaborado em comparação aos trabalhos anteriores.

Como sugere o título do álbum, a palavra tem nele um objetivo muito certeiro: ser direto. Mas ora, como ser, ao mesmo tempo, direto e metafórico com a linguagem? Soa como uma contradição. Eis o verdadeiro valor desse disco: um tratamento tão elaborado com as letras e uma submissão praticamente perfeita à melodia, que surgem canções impecáveis dessa solução.

Quem conhece minimamente a obra de Belchior sabe que as suas músicas retratam um homem renascentista perdido na selva tropical. Não tão renascentista pela razão, mas pela independência humana em relação ao divino. Para o cantor, o desejo humano antecede qualquer norma, regra, convenção ou limite. Até mesmo Deus é subordinado à vontade terrena. Com Objeto Direto não é diferente. O cantor faz uma declaração amorosa indubitavelmente humana quando canta Seixo Rolado, uma das canções do disco que melhor ilustra essas características:

Tudo que tenho é meu corpo/Sou o que tenho e te dou/Com um corpo como o teu/Não precisas nem de alma/Anjos, se houvesse anjos…/Claro, seriam como tu/No corpo, rosa dos ventos/Tudo é norte, tudo é sul/Se oriente, se ocidente.

O mérito de Belchior não está na provável atualidade das suas canções, muito menos no sucesso de beco que teve. O cantor retratou assumidamente sua geração, não fez questão de ser imortal. Por vezes, seu discurso pode ser interpretado como anacrônico, e assim deve ser. Sua produção é artística e se baseia em si mesma, não quer retratar seu nome como uma estética independente. Sua criação fala por ele. Eis o maior mérito de Belchior.

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