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Ensaio sobre a vagina

29/01/2012

Onde está a vagina que ela imagina existir? Parece loucura, mas muitas mulheres não sabem da sua existência, não sabem seu cheiro, sua textura, sua aparência. ‘A Vagina, esta eterna desconhecida’. Herança da educação nos moldes paleozóicos. Claro que ‘Vaginas pra que te quero’ já é demais, mesmo assombro da soberania paudurecência!

Não se trata de autoconhecimento, pois isso é impossível. Trata-se de conhecer os limites, conhecer um mundo (o seu) (que é de todo o mundo). Vaginas são partes, peças de encaixe produzidas e/ou surgidas na natureza por vontade natural, mas a vagina natural, não o que se faz dela! Toda ação é gerada por um pensamento, produzido (não naturalmente) pela sua dona, pela dona da vagina. A vagina não fala. Realmente não é um ser racional. A vagina (por vontade da dona) pode sair correndo, mas não tem movimento próprio! Bendita pornografia que esfrega vaginas na nossa cara, vaginas lisas devidamente penteadas, vaginas em uso constante, com começo meio e fim (sem finalidade). Não se assuste se começar a imaginar as ‘Vaginas em ação’ e achar excitante! Vaginas são excitantes! Vaginas são feitas de carne, afim de abraçar o pênis de uma maneira amigável. Vagina é um órgão! O sexo não é um órgão! A vagina é sexual, olhemos para ela: ela é sexual!

Imagino agora um dos monólogos do filme-documentário Monólogos da Vagina (2007) quando uma das personagens de Eve Ensler confessa: “Estava brincando sozinha no porão, provando um novo conjunto de calcinha e sutiã brancos de algodão, que a namorada do meu pai me deu. De repente, um grande amigo do meu pai, um grandalhão chamado Alfred, me ataca por trás, tira a minha calcinha nova e mete seu pênis grande e rígido bem dentro na minha chiquitinha. Começo a gritar e a espernear, tentando me livrar dele, mas ele já está dentro.” Ou quando conta a história de uma jovem bósnia resgatada de um campo de estupro na antiga Iugoslávia: “A minha vagina cantando canções de meninas, todas as canções de sininho de cabras, todas as canções rurais de outono desvairado, canções vaginais, canções vaginais familiares. Não desde que os soldados puseram um rifle longo e grosso dentro de mim. Tão frio, o cano de aço destruindo o meu coração. Não sei se vão dispará-lo ou metê-lo no meu cérebro que não para de dar voltas. Seis deles, com máscaras pretas, metendo garrafas dentro de mim também. Havia varas e cabos de uma vassoura. A água límpida de um rio de mergulho da minha vagina, água que se derrama sobre as rochas banhadas pelo sol – clitóris sobre as rochas; clitóris, rochas, múltiplas vezes. Não desde que ouvi a pele rasgando, fazendo sons estridentes e ácidos… não desde que um pedaço da minha vagina se desprendeu e caiu na minha mão. Agora, uma parte do lábio, um lado do lábio desapareceu completamente. A minha vagina, uma vila de água, molhada, viva. A minha vagina foi um dia a minha cidade natal. Não desde quando eles revezaram. Revezaram durante sete dias, cheirando a fezes e carne defumada. Deixaram seus espermas sujos dentro de mim…”.

De repente, a Vagina percebe que pulsa no mesmo ritmo que outro órgão: o coração. Quando o cérebro se excita, pulsa! A Vagina pulsa, pois o coração pulsa! Quando Eve Ensler se deparou com uma ‘Vagina parideira’ não resistiu: “Eu estava lá mais tarde, quando simplesmente me virei… virei-me e encarei sua vagina. Fiquei ali de pé e me permiti olhar para ela, toda esparramada, completamente exposta, mutilada, inchada, despedaçada, sangrando sem parar sobre as mãos do doutor, que estava calmamente dando pontos lá. Fiquei ali de pé… e, enquanto fitava, sua vagina de repente se tornou um coração grande e vermelho… e pulsante. O coração é capaz de sacrifícios. A vagina também é. O coração é capaz de perdoar e se recompor. Pode transformar sua forma para nos deixar entrar. Pode expandir, para nos deixar sair – a vagina também. Pode sofrer dor por nós, pode se expandir e morrer por nós. Pode sangrar e, como resultado, nos trazer para esse mundo difícil e maravilhoso. A vagina também pode.”

(texto publicado originalmente por Boris Rurik no Where la gente véve em 7 de março de 2010)

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