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A pátria de livros?

30/11/2011

Facebook é a mídia da vez. É lá que coisas fantásticas e horríveis acontecem, que internautas compartilham informações surpreendentes e desnecessárias. É lá também que os usuários se expõem a males graves, os virais. Essa nova categoria virtual surge para satisfazer uma antiga necessidade humana: a de se expressar. No caso dos virais, vai muito além disso: expressar o seu posicionamento perante um assunto/fato/coisa, expurgando posicionamentos alheios que podem se confrontar com o próprio. Delimitar que essa ou aquela pessoa é contra a construção da usina hidrelétrica de Belo Monte, que fulano é contra a violência infantil, que beltrano é “pra casar” e pólvoras afora. Divertimento inocente? Nem sempre.

Viral também foi o assunto do post anterior. E como anteriormente, o dito denuncia interessantes constatações sobre a relação entre comportamento real e virtual. É tarefa quase impossível datar um viral, dificilmente sabemos sua autoria, se foi modificado e qual seu objetivo (como em quase todo material virtual e, por que não, material). A questão em jogo é a divulgação desses materiais, a motivação de alguns usuários em publicar maneiras de se dividirem entre bilhares de gotas d’água, já que habitam em nuvens. Claro que as motivações são inúmeras (em se tratando de comportamento humano na internet, Freud pediria ajuda), mas não pretendo aqui definir, distinguir e muito menos catalogar espécies (tarefa muito bem executada pelos sites/blogs de humor).

Há algumas semanas, começou a correr pelo Facebook um viral que mexeu com a classe intelectual da rede:

Não gosta de funk, mas curte uma vírgula e uma caixa alta como ninguém!

Vê-se que livros-ouvintes se entristecem e cometem suicídio quando um funk é executado. Historicamente, a ideia “livro” é símbolo de racionalidade, da soberania intelectual sobre a ignorância. Quer dar pinta de intelectual? Seja visto numa livraria, diga que o livro é melhor que o filme ou abra uma conta no Skoob. A preocupação política (ou a falta dela) em abrir novas bibliotecas e melhor equipar as já existentes é uma das evidências do bookpower. A eterna comoção pela queima de bibliotecas por governos repressores como o Bücherverbrennung nazista, a redução a pó do berço da civilização ocidental contida na Biblioteca Nacional do Iraque durante a invasão norte americana do país em 2003, a destruição do mundo helenístico do século III a.C. na mais famosa incineração livresca do mundo, a da biblioteca de Alexandria são alguns exemplos do poder da cultura do livro. Claro que queimar livros é uma atitude reprovável sobre qualquer ponto de vista; e é igualmente incontestável que desde o século XVI, com a ascensão da burguesia, a ideia “livro” se tornou um status social.

O funk a que se refere o viral é provavelmente o funk carioca moderno. Produto de infinitas mutações do gênero musical funk da década de 60, o funk carioca que ganha a mídia hoje é o das letras obscenas e pancadas rítmicas, o pancadão. Há imensa recusa por parte dos brasileiros em considerarem o pancadão como estilo musical, ou até como música. Fora o asco por tudo o que venha do quintal pra lá, o pancadão é comumente catalogado como música para dançar. Atrelado também (mas não exclusivamente) às classes mais baixas, dos morros cariocas, o funk que se desenvolveu ali retrata uma realidade que é, muitas vezes, tão distante da do resto da cidade (cidade de contrastes?).

Como água e óleo, livros e funk não se misturam, segundo a dita imagem. Há nisso uma ideia equivocada dos dois elementos. O livro descansa em prateleiras, como um tesouro, algo a ser exposto. Símbolo de seu imaculado valor. Como na cultura plástica atual, em que aparência passou a ser valor máximo da contabilidade emocional, os livros são externos, algo a ser apreciado como valor meramente estético, não mais intelectual. Escritórios podem ser decoradas com peças de madeiras ocas que são desenhadas em formato de livros, expressando todo requinte de se ter livros em casa, mas sem a indigesta traça. Possuir os títulos de “devorador de livros”, “rato de biblioteca” ou “traça de livraria” catapulta o indivíduo a um seleto patamar de pessoas que detêm uma aura mágica por simplesmente lerem. Ao mesmo tempo, quem habita esse altar parece que deve ficar longe da cultura popular, distante de uma linguagem que parece ser inferior a sua, inválida. Será que quem lê possui uma alma tão transcendente a ponto de não poder mais habitar a reles evidência de outras realidades? Em que ponto a leitura divide o mundo em valias? A leitura segrega sim objetos, realidades, fatos e ideias para questionar, provocar, reafirmar, analisar, abominar, duvidar. Sim, é terminantemente possível abominar o funk, válido! Porém, argumentar um des-gosto com uma categoria intelectualizadora como o livro, é um equívoco. Não gosto de música de loja de roupa por simplesmente não gostar.

Olhando livros em prateleiras fico pensando o tanto que eles não pertencem àquele espaço. Não nasceram ali. Livros são produtos finais de histórias passadas e matérias primas de histórias futuras. Mas não estão lá, nem existem na verdade. Lembra-se das pessoas-livros do Fahrenheit 451?

Quanto mais a nuvem do Facebook cresce, mais evidente fica o caráter tribal que a internet absorveu da realidade material. A crença em um mundo virtual sem fronteiras é um bibelô de luxo que insistem em vender. Quando Senhora de José de Alencar ouvir Tá Na Minha Hora de Adriana Calcanhotto, tomará doses mortais de aspirinas; A Mulher de Trinta Anos de Balzac injetará botox na veia quando ouvir Geração Coca-Cola da Legião Urbana; o que será de Noite na Taverna de Álvares de Azevedo quando ouvir I Can See Clearly Now de Jimmy Cliff?

Quem criou o viral em questão deve, no mínimo, ter lido Nietzsche no original!

3 Comentários leave one →
  1. Lilian permalink
    05/12/2011 22:29

    Não sei se o dado é real, mas vi que apenas 12% dos brasileiros lêem um livro por ano, chocante, não?

    • 06/12/2011 0:22

      Revoltante. E ainda temos um problema muito mais profundo pra tratar, que é a causa desse número: escola. Ensina-se, errado. Mas existe uma cultura que é muito forte, antiga, que é a do brasileiro inteligente sem nenhuma escolaridade. E quando há instrução, é pra competir com os outros, e não pelo simples gosto do conhecimento. Será que Macunaíma é, de fato, nosso herói máximo?

      • Lilian permalink
        17/12/2011 1:46

        Realmente é difícil de entender. Talvez, para muitos, a maladragem de Macunaíma seja louvável. Durante os anos de faculdade, vi muito desperdício de inteligência. O foco era a competição na profissão. Ninguém está sem importando muito em buscar conhecimento. É essa falta de interesse pela leitura que me deixa mais revoltada. O que será da nossa geração? E das próximas?

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