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Manuel Bandeira é meu e ninguém tira!

21/08/2011

Que os moderninhos de 1922 estavam fartos do lirismo comedido e namorador não é novidade pra ninguém. Pintar uma criatura com o pé sete vezes maior que a cabeça ou escrever um poema com uma só palavra são indícios de ruptura com a estética tradicional. Mas com a popularização do computador Positivo e o irônico percurso histórico do mercado de arte, o sentido virou o meio, ou seja, indivíduos entendem o incompreensível e compram interpretações tendenciosas do nada. Afinal, segundo Aline Dorel, o ser humano ainda hoje não sabe muito bem o que é o Abaporu. O que seria também o tal segredo de liquidificador?

Era uma vez um canal do youtube chamado “indignidade1901” que postou somente um vídeo nos dois anos que está no ar. O referido material foi visto 4153 vezes até o momento presente. Trata-se de uma gravação clandestina (como 92% dos vídeos do site) da apresentação da cantora e compositora Adriana Calcanhotto na FLIP 2009 lendo o poema Poética de Manuel Bandeira.

O que impressiona é a aura mágica que o fã desolado coloca sobre Manuel Bandeira. A troca do -u pelo -o no nome do autor deve ser consequência do choque que o pobre usuário teve ao ver os pedaços de folhas voando. O que o inconsolável Bandeiricat não entendeu foi a contestação (explícita) que o poeta escreveu e a cantora representou. O modernismo brasileiro foi o movimento que digeriu todas as vanguardas da época, sobretudo as europeias. Uma delas foi o Futurismo, regido sob o Manifesto Futurista do poeta italiano Filippo Tommaso Marinetti que previa “destruir os museus, as bibliotecas, as academias de toda natureza” e “exaltar o movimento agressivo, a insônia febril, o passo de corrida, o salto mortal, o bofetão e o soco”. Isso explica o significado do poema escrito, a atitude da cantora sobre ele e até o som percussivo da bateria. O tom melancólico e possessivo do fã de Bandeira destoa completamente de todo o sentido modernista! O sentimento de posse e idolatria que alguns fãs tem em relação ao artista faz com que aqueles idealizem a arte e mantenham a postura contemplativa diante desses. O artista (sobretudo o poeta) é visto ainda hoje como um ser mítico, distante de todo elemento humano. Esses caracteres estão sendo renegados por culpa da deflagração da intimidade do artista. O que é ótimo!

Imaginem quando o pobre fã viu o santo nome de Manuel Bandeira na boca da não-tão-santa-assim Valesca Popozuda! Infarto agudo do miocárdio foi pouco!

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