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Niemeyer sem obra

14/05/2011

Dia 10 de maio seria, ou é, aniversário de Maringá. Desde o governo petista de José Cláudio, a data foi sendo alterada conforme os interesses da associação comercial da cidade. Em 2008 virou lei: todo ano em que o dia 10 de maio não cair no domingo, a comemoração dos novos anos da cidade passa para a segunda segunda-feira de maio. Logo, a falta de interesse dos comerciantes pelo feriado em função de seus interesses econômicos não é novidade! Na mesma tendência, o prefeito Silvio Barros e o governador Beto Richa mostraram, na última segunda (9), durante o desfile cívico-militar noturno, o quanto são indiferentes à manifestações culturais.

O desfile começou por volta das 19 horas; só faltava Richa para completar o quadro de políticos presentes no palanque montado no meio da avenida. Mesmo sem a ilustre presença, o desfile desponta. Primeiro, os soldados do tiro de guerra, policiais, bombeiros e agentes da guarda municipal mostraram suas armas, carros blindados e caminhões com sirenes. O mérito foi de João Daniel de Barros, menino de 5 anos que luta contra a leucemia e que sonha em ser bombeiro, que desfilou com um sorriso vital em uma lancha da corporação. Logo depois, as alas temáticas vieram contemplando o “poeta do concreto” Oscar Niemeyer. Maringá não possui nenhuma obra do arquiteto (só um projeto frustrado para o novo centro), mesmo assim, a secretaria da cultura contou com centenas de bailarinos e artistas da região para homenagear Niemeyer. Incontestável a qualidade estética dessa parte do desfile, com uma produção magistral e organizada. Foi um espanto para todos quando maquetes de mais de 3 metros de altura da Catedral de Brasília, da Igreja de Pampulha e do Museu Oscar Niemeyer desfilaram com iluminação policromática (o desfile foi noturno). Bailarinos sincronizados traziam arcos de LED jovens com perucas e óculos pisca-pisca riscando passinhos,  pernas de pau fazendo malabarismos. Por alguns instantes, os espectadores silenciaram e só destoaram nas sinceras palmas. Momento onírico, é verdade!

No entanto, o encanto se quebrou quando as últimas alas temáticas estavam no meio do percurso. A música que entoava o desfile foi cortada repentinamente e as crianças que dançavam fantasiadas de personagens históricos e fictícios tiveram que rebolar para manter o ritmo. Começaram a cantar em voz alta, tentando sincronizar o grupo novamente depois da parada imprevista. O fato por si só já era revoltante, mas piorou quando o locutor anunciou que os excelentíssimos prefeito e governador iriam discursar. Eis o motivo da suspensão do desfile! Primeiro, o prefeito Silvio Barros usou o microfone para aclamar o seu povo: perguntou-lhes se estavam gostando do teatrinho armado pela prefeitura, reiterou que se tratava de um espetáculo único  e prometeu mais para o próximo ano (eleitoral). Em seguida, o governador Beto Richa tietou seu mui amigo Barros: disse que Maringá deve se orgulhar de ter um prefeito tão competente e que a cidade é um dos maiores orgulhos do estado (concomitantemente ao desfile, acontecia a feira agroindustrial da cidade). Richa tinha muitos compromissos; chegou atrasado e minutos depois foi embora. Logicamente não podia ir embora sem discursar, muito menos esperar o fim do desfile. Então por que não interromper o circo no meio? Fez-se! E não há a necessidade de pedir desculpas para os jovens que tiveram que se desdobrar em milhões para concluirem dignamente a apresentação, pois são só estudantes que estão brincando de interpretar e dançar!

Depois da impertinente interrupção, o desfile, de repente, continuou. Ofuscados pela grandiosidade das alas temáticas anteriores, os colégios, as instituições sociais e demais setores que desfilavam viram o público indo embora, certos que o melhor já tinha passado. Surpresa: os grupos folclóricos representando a mistura étnica da cidade, os colégios públicos mostrando o desejo de serem vistos, as bandas de sopro e bateria comunitárias provando a boa vontade individual mudaram o espírito do desfile. A procissão de veículos antigos foi um barato. Motociclistas encaveirados, opala com bancos brancos, fuscas com famílias inteiras dentro, motonetas levando jovens casais, kombi azul, carro funerário, reboque com crianças, uma festa! Foram simples, sinceros, estavam ali pelo gosto de representação e não de exaltação! Trocaram a contemplação pela comunicação, com sucesso! A sensação de que a verdadeira sinceridade está na simplicidade era evidente!

Houve divisão nítida. A má impressão de que o desfile temático desbancaria os que viriam depois do enfadonho discurso político foi abafado pela sinceridade, beleza e vontade de quem realmente mantém a memória cultural acesa. Porém, esse cenário empírico não pode representar ideologia demagógica alguma! Não é à toa que os desfiles comemorativos em repúblicas democráticas levam o nome de “cívico”. Silvio Barros e Beto Richa escancararam a bizarrice da política populista: fazem o que é dever como se fosse favor e ainda querem deixar a cereja de fora…

2 Comentários leave one →
  1. Ariane permalink
    30/05/2011 12:11

    O desfile costumava ser na XV de Novembro. Eu curtia assistir (já teve até antigos prefeitos representados por bonecões de Olinda), mas após anos a fio acordando cedo num feriado com o som alto das fanfarras atrás da sua casa, perde um pouco a graça

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  1. Convite ao Desfile | where la gente véve

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