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Enquanto isso, nos classificados…

07/02/2015

Há tempos comecei a prestar atenção no mundo do trabalho e percebi o quanto ele é complexo. Junto a isso, notei que anúncios de empresas procurando profissionais guardam a verdadeira essência do mercado empresarial. Me deparei com um desses anúncios dia desses. Tratava-se de uma agência de publicidade, anunciando uma vaga de estágio em Planejamento. Os requisitos padrão de criatividade/organização/proatividade logicamente estavam lá. Mas um requisito saltou e me chamou a atenção: ser heavy user de mídias sociais, Web a APPs. Me fez pensar: o que significa para o corpo de uma empresa querer alguém heavy user de internet? O que isso representa para o mundo profissional da comunicação?

Remontar toda a história da internet não convém para o espaço deste texto, nem para o conhecimento deste autor, mas o que é importante deixar claro é o óbvio, por mais que muitos esqueçam: a internet não é um bem social como educação, saúde, segurança. A internet é um produto, uma empresa com razão social e CNPJ. O substrato dela é um bem social: a comunicação. Quero dizer, a internet utiliza um bem social como moeda de troca: o Google Now entrega os nomes dos restaurantes próximos a você, e em troca você vê alguns restaurantes anunciantes na pesquisa. Se informar sobre os restaurantes próximos à sua casa é um direito, uma questão de comunicação, que o Google, uma empresa, facilitou. Colégios particulares são empresas que disponibilizam seus serviços para educarem os filhos de seus clientes; planos de saúde são empresas que vendem consultas e exames para proverem saúde e bem estar de seus clientes. A internet facilita processos, mas a partir de um dado momento, ela começou também a criar processos.

Grandes monopólios de empresas ligadas ao ambiente virtual instigam seus clientes às interações sociais em diversas esferas: os smartphones e a recente internet das coisas são exemplares, pois levam a interação online a quase todos os processos da vida, desde saúde e educação até consumo e política. No entanto, essas inovações são produtos vendíveis, mesmo que seu acesso seja gratuito. O acesso ao Facebook é pago com as informações que o usuário entrega ao banco de dados que por sua vez são acessíveis a empresas e aplicativos, que os utilizam para anúncios e estratégias de marketing. Nunca as informações e dados pessoais valeram tanto. Não à toa que as mídias sociais têm grande apelo por conteúdos pessoais. Ou seja, usuários de mídias sociais são também operários, produzem o conteúdo que move toda a estrutura desse tipo de uso da internet. Ou seja, o faturamento desses monopólios depende do uso massivo de seus produtos; consequentemente, trabalharão para que um ambiente de heavy user se instaure como natural e inevitável.

Com tudo isso, quero dizer que quando uma agência de comunicação quer contratar um heavy user de mídias sociais, Web a APPs para compor seu quadro de funcionários, ela espera um especialista em produtos específicos da internet, e não um especialista na vida social da internet. O que algumas empresas esperam de comunicólogos é que sejam usuários de mídias sociais, e não produtores de mídias sociais. E essa é uma diferença importante. Um funcionário que usa mídias sociais é um funcionário passivo em relação ao que usa, é o usuário comum, que não projeta a internet como um processo. Sim, todos somos usuários comuns. Então, qual a diferença de um profissional de comunicação frente aos usos da internet? Advogados advogam e usam a internet. Engenheiros constroem e usam a internet. Médicos operam e usam a internet. Comunicólogos usam a internet e só? Para muitos contratantes sim. Mas o que deveria diferenciar o profissional de comunicação em relação às outras profissões não é o uso, mas a inovação.

Comunicólogos deveriam ser profissionais que inovam, que propõem novos usos para a internet, novos produtos, uma vez que produtos morrem e nascem a todo momento. Infelizmente, esse mundo ideal existe em polos concentrados que dispõem de um mercado inovador e um sistema educacional tradicionalmente evoluídos como nos E.U.A e na Finlândia. Enquanto tivermos um sistema formativo que escolhe técnica ou humanismo, um mercado profissional que busca operários de comunicação e profissionais que se especializam em produtos, a inovação continuará em polos concentrados ou sendo exportada para esses.

* O jornalista Carlos Castilho publicou no portal Observatório da Imprensa o artigo Estamos hipotecando nosso futuro ao Arquivo Internet, que ilumina muitas das interrogações e reticências que ficaram.

Em terra de cego quem tem cinema é Rei

30/11/2014

O cinema, apesar de seu curto tempo de existência, ganhou rápida notoriedade e uma história movimentada quando comparado a outras expressões comunicacionais. Sem entrar na controvérsia discussão de estabelecer o nascimento do cinema, entende-se cinema aqui como o mercado de entretenimento ocidental nascido em fins do século XIX e desenvolvido, sobretudo, no século XX.

Em suas primeiras exibições, o cinema cumpria uma função muito bem definida: entreter um público pagante massivo. O conteúdo era, geralmente, de cunho fantasioso e com inúmeros efeitos de filmagens, ou trucagens, expressão da nova tecnologia nascente da época, a montagem em película fotográfica. Esses efeitos enchiam o público de surpresas e fantasias. Assim, mostrava-se ao público uma nova forma de interagir com imagens que antes eram apreciadas ou sem museus e galerias, ou em livros e catálogos, todos estáticos. A imagem em movimento será uma novidade que educará as sociedades que detinham os equipamentos cinematográficos para uma nova apreciação, ainda não artística. Essa tecnologia, até metade do século XX, era considerada mero entretenimento para as massas, uma apreciação rasa e sem crítica. Após os usos militares da comunicação audiovisual, notoriamente realizados pela Alemanha, Itália e E.U.A, entre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial, o cinema surge como a grande expressão, agora sim, artística de nossa época. Cabe ressaltar que a linguagem cinematográfica foi germinada e amplamente colhida já no início do século passado, no entanto, foi o bélico investimento já citado que elevou o cinema ao status que preserva até hoje (digno de nota o cinema polêmico do estadunidense David Griffith).

Produções cinematográficas são pensadas em conjuntos de armações linguísticas, sejam verbais, visuais, sonoras, sensoriais, psicológicas etc. Tais armações são ordenadas a fim de transparecer certo argumento, ou raciocínio, seja do roteirista, diretor ou produtor que facciona o filme ou mesmo do estúdio, empresa ou governo que financia e apoia a produção. Quando Edwin Porter lançou O Grande Roubo do Trem em 1903, a semente da narrativa cinematográfica começava a colher frutos devido a uma inédita linearidade que permitia ao cineasta contar uma história, passar ao público uma mensagem, ideia, conceito ou sentimento através do apelo rápido da visualidade (os nazistas souberam aproveitar isso muito bem). Assim, ao longo do século XX, produtores, roteiristas, diretores, governantes, empresários e os mecenas da sétima arte começaram a se importar mais com o cinema, investindo em seu desenvolvimento técnico e narrativo para difundir suas ideias ao grande público.

Um caso que ilustra essa preocupação é o longa-metragem The Wild Women of Wongo de 1958 do diretor estadunidense James Wolcott. O filme narra a história de duas tribos separadas, por vontade da Mãe Natureza, em duas ilhas: a de Wongo, onde os homens são feios e as mulheres bonitas, e a de Goona, onde os homens são bonitos e as mulheres feias. Por um capricho e desventura das mulheres de Wongo, as tribos se encontram e os pares românticos são reorganizados: as belas de Wongo com os belos de Goona e os feios de Wongo com as feias de Goona. Com uma sinopse simples, o filme reitera o aspecto narrativo atrelado a preceitos sociais, neste caso, o da sociedade conservadora estadunidense, consumidora assídua dos filmes de Hollywood dessa época. Aos olhos do século XXI, o filme pode parecer estranho, exagerado, inverossímil. Mas para a sociedade da metade do século XX, já dicotômica, Women of Wongo é o triunfo da beleza, da aspiração familiar e da felicidade inveterada. Pode-se dizer que a linguagem constante no filme representa os anseios e visões da sociedade para a qual foi produzido. Ele cumpriu seu papel educativo e elucidativo de sua temporalidade.

Quando o cinema ganha o status de arte (e o respeito da crítica), a teoria que trata da arte não acompanha esse desenvolvimento. A estética tradicional contempla somente as artes plásticas e literárias como objetos estéticos (belas artes e belas-letras). Só recentemente, em fins do século XX, que o cinema e outras expressões serão vistas e analisadas com as lentes estéticas. Valendo-se dessa última concepção, pode-se assistir Women of Wongo atentando-se a aspectos peculiares de sua feitura. Uma delas é, como dito, sua esfera social.

Assim como a pintura Mona Lisa de Leonardo Da Vinci é considerada ‘obra de arte’ graças a um complexo e amplo sistema que a valida como tal, o filme em questão é validado como obra graças à produção cinematográfica que, por si só, é instituída de certo nível de artisticidade, este, sempre regido por regimes arbitrários. Isso é o que explica o anacronismo do filme, a sensação incômoda de assisti-lo em tempos atuais: fora feito tendo em vista certas expectativas da época. De modo correlato, pensa-se em uma situação hipotética em que o célebre quadro de Da Vinci passa a não ser considerado uma obra de arte, mas sim um conjunto de signos pintados aleatoriamente. O que quero dizer é que a validade de obras artísticas passa pelo delicado e instável crivo de um sistema social que, por tais características, é alterado de tempos em tempos.

Wild Women of Wongo (1958)

Wild Women of Wongo (1958)

Na estética fílmica de Women of Wongo encontra-se uma profusão de signos: belas mulheres atuando como selvagens, grandes cenários plásticos (como nas ruínas do antigo Império), lutas forçosamente executadas, mulheres “feias” da tribo Goona e seus semblantes grotescos, atuações simplificadas, jacaré de isopor entre outros. Pode-se dizer que o filme é representativo da estética do exagero, recorrente dessa época do cinema, sobretudo a fase teatral, de musicais, na qual o cinema incorpora elementos de seu primo, o teatro. Aos poucos é que o cinema foi ganhando sua própria identidade. Antes disso, o cinema se baseia em atuações carregadas, não só pela produção, mas também pelo fato de grande parte dos atores, atrizes e diretores de cinema dessa época serem formados em escolas de teatro.

Visto com olhos do século XXI, o filme em questão parte do exagero para o ridículo. O coletivo de humor The Film Crew representou bem essa nova visão e leitura de Women of Wongo. Fazendo comentários simultâneos, os três apresentadores deflagram a comicidade de uma obra passada, mostrando que nenhuma mensagem chega a tempos futuros com a mesma carga interpretativa (hoje questiona-se se Mona Lisa é homem, cliente ou ninfa). É curioso questionar se daqui a 50 anos existirão comentários bem humorados e irônicos de Patch Adams.

Divulgação

Divulgação

A estética do exagero encontra eco também no chamado “cinema de bordas”. Essa categoria cinematográfica se vale de uma equipe simples de produção para criar filmes nos moldes de grandes produções, geralmente de ação e aventura. Elegendo como grande inspiração os filmes de luta e guerra das décadas de 80 e 90, pequenos produtores do interior se valem de seus equipamentos amadores e curto (quase inexistente) orçamento para criar suas próprias obras fílmicas. Essa é a celebração de uma estética nunca antes pensada: a estética iminentemente popular. É a voz de uma parcela considerável do público que agora vê sua linguagem ser retratada em uma tela maior que a sua janela. Essa estética, ainda hoje, se recusa a ser “levada a sério”. É considerada por muitos como uma vertente de um certo cinema, ou uma categoria de produção audiovisual específica, mas raramente uma obra de arte.

O que é interessante de ser notado são as interações e cruzamentos da estética do exagero antiga de Women of Wongo e a efervescência representada atualmente pelo cinema de bordas. Esse último é, especialmente no Brasil com suas grandes regiões interioranas quase desconhecidas do restante do próprio país, um fenômeno que ganha cada vez mais espaço: houve um programa televisivo no Canal Brasil com periódicas exibições de filmes de bordas durante o ano de 2013; o Itaú Cultural promove, desde 2009, uma mostra anual de cinema de bordas com direito a curadoria e homenageados. Como se percebe, essa categoria vive em amplos espaços construindo sua própria história. A estética do cinema de bordas se assemelha à estética do exagero: encenações carregadas, atuações e cenários simples, roteiro sem profundas viradas de conflito. Claro que o fator temporal é relevante: como já dito, o contexto tecnológico de produção de Women of Wongo é representativo da década de 50; o atual cinema de bordas é simplificado mesmo com as possibilidades técnicas de nosso tempo. Sem entrar em tal discussão, o que interessa a esta análise é o recorte narrativo e sua percepção atual.

O que valida o cinema de bordas como uma vertente cinematográfica relevante atualmente não parece validar o cinema da estética do exagero. O primeiro parece trazer em seu bojo uma discussão social e política que o valida, aí sim, como arte (quando assistido no Itaú Cultural na Avenida Paulista). Já o segundo parece estar tão distante no tempo que não o consideramos como possibilidade estética, no máximo como uma excentricidade. O mesmo ocorreu com o cinema trash ou do gênero terror. Em outubro de 2006, numa sexta-feira 13, uma mostra permanente de cinema da Universidade Estadual de Maringá, o Cinuem, organizou a “Maratona do Terror”, exibindo, ininterruptamente, filmes clássicos de terror (alguns trash como O Massacre da Serra Elétrica) durante a noite e madrugada. Exibidos em um ambiente acadêmico e fazendo um recorte temático, os filmes podem ser apreciados e analisados a luz de uma certa excentricidade. Mas os mesmos filmes “clássicos” continuam a ocupar uma prateleira distante da que está Casa Blanca.

A Morte do Social Media

27/09/2014

É isso, o social media vai morrer. É quase como dizer que eu e você vamos morrer. Constatação óbvia, mas angustiante. Alguns se sentirão tristes: “demoramos tanto (!) para construir essa atividade”; outros, desolados: “o que vou fazer da vida?”; há ainda quem se recusará: “puro recalque”. Mas o fato é que a relação empresa-internet é muito mais dinâmica do que querem pensar as agências especializadas e escolas de criação em comunicação e marketing.

O social media como entendemos comumente hoje, como atividade profissional, surgiu com o desespero de marcas e empresas em lidar com o mundo novo da internet. Fluxos intensos de relações, conteúdos cada vez mais acessíveis, disposição infinita de clientes, barateamento na produção em comunicação são algumas das beneficies que a internet propiciou às empresas. Para aproveitar, criaram uma função, um perfil profissional capaz de lidar com esse fluxo imenso de relações, o social media. Esse profissional é habilitado a produzir conteúdos e se relacionar com os clientes online. Talvez aí esteja o equívoco que o levará à cova.

Mídias sociais são plataformas de relacionamento. O Facebook, em seus primeiros tempos, era uma vitrine pessoal, um lugar no qual usuários entravam em contato com outros usuários, conhecendo seus gostos, aptidões, aspirações a fim de construir uma amizade. Ao longo de alguns poucos anos, o Facebook foi sendo povoado também por empresas e marcas que almejavam esse mesmo relacionamento. A mudança é óbvia: uma fanpage é uma marca, ou em alguns casos, uma empresa com máscara humana. Pela natureza da plataforma em que estão, usuários de internet querem atuar, modificar, reciclar, opinar e não necessariamente comprar. A internet é um meio, como a TV. Assistimos televisão para entrarmos em contato com conteúdos (arte, entretenimento, prestação de serviço, cidadania etc.). Quando empresas entram no jogo com seus logotipos, slogans e jingles para disputar atenção com nossos contatos pessoais, perdemos o conceito básico de mídias sociais. Grandes marcas perceberam essa aspiração e hoje produzem conteúdos relacionais para as plataformas digitais. No entanto, as marcas ainda representam empresas, e não pessoas, o que gera estranhamento. Assim, o Facebook passou de uma mídia social pessoal para uma mídia social empresarial. O impacto que isso traz é a evasão cada vez maior de usuários que não precisam mais do site para consultar conteúdos (feeds) e nem para conversar com seus contatos (Messenger). Alguns dirão que os números do Facebook indicam o relacionamento com clientes. No entanto, as métricas que a empresa disponibiliza aos profissionais de mídias sociais são tão imprecisas quanto pesquisa popular em rodoviária. Compartilhamentos, tempo de exposição, comentários, acessos entre outros parâmetros dizem mais respeito a construção de marca do que relacionamento.

O social media como conhecemos hoje é uma profissão em extinção, como é o caso do antigo datilógrafo ou despertador humano. Isso porque, todos lidam com plataformas, e essas se modificam. Lidar com a morte sempre foi difícil, ainda mais com o eterno presente que insiste em não enrugar. Mas as mídias morrem, e sempre há quem perceba isso e indique novas mídias, novas formas de comunicação, de mediação. (In)felizmente, esses inovadores não são publicitários ou marqueteiros. São engenheiros, artistas, biólogos, cientistas computacionais, comunicólogos e quase toda a academia. Quando digo que o social media vai morrer, não digo que a internet vai junto. Social media é um modo de atuar na internet, mas existem outros. Deveria ser papel do profissional que atua em internet propor novos modelos, novas ideias de convívio tecnológico. No entanto, grande parte desses profissionais replicam o que é estável, dirigem de acordo com o que empresas e “escolas criativas” lhes entregam como conduta, deixando a tal da inovação para outras áreas (que sempre ocupam a ponta, lugar tão desejado pelo social media). Há algum tempo, participei de um evento cujo objetivo era mostrar a importância e relevância das métricas que o Google disponibiliza. Houve uma discussão acalorada sobre o desrespeito e a falta de valorização do profissional de mídias sociais. Me parece legítima essa descrença, já que a inovação do social media é sempre conduzida, preocupando-se em se especializar em empresas ao invés de se especializar em tecnologia (claro que é necessário também desfazer os monopólios), entender o porquê e o como, não só o como fazer.

No momento do sepultamento do social media, nascerá um novo perfil necessário. Cabe a cada um entrar ou não na vala.

Convite ao Desfile

12/05/2014

É chegada a hora do tradicional post cívico-militar. Como acontece todo ano, este ínfimo blog faz publicar as impressões de seu autor sobre o desfile comemorativo da fundação da cidade de Maringá. Em 10 de maio de 2014 (algo errado?) a cidade completa 67 anos.

Em 2013, primeiro mandato do prefeito-vice Roberto Pupin, o então secretário de cultura Jovi Barboza não mexeu em nenhuma lantejoula de desfiles passados. Isso significa que os desfiles permaneceram pirotécnicos, herança de Flor Duarte, antiga secretária de cultura em mandatos Barros passados. Com a saída de Barboza, a organização do desfile passou a ser comandada pela nova secretária Olga Agulhon. Houve mudanças significativas, como a mudança do período e local do desfile, enxugamento de alas e de efeitos carnavalescos pela avenida.

Não vou me repetir na incansável crítica da mudança da referida data comemorativa feita pelos comerciantes da cidade. Não temos culpa se os planejadores ingleses não gostavam de suas mães.

Há algumas edições, o desfile acontecia no período noturno na larga, espaçosa e vazia Avenida Horácio Racanello, o que possibilitava à prefeitura investir em inúmeras pirotecnias luminares sem muitas limitações de espaço. Mas chegou Olga Agulhon e pôs fim ao circo. O desfile volta a ser executado no frescor da manhã na tradicionalista Avenida XV de Novembro. O tema deste ano, não menos ousado e audacioso do que de anos anteriores, foi ‘Maringá das Artes e dos Esportes’.

Em uma alusão direta à Copa do Mundo, o desfile apresentou somente uma bola de futebol gigante. Em uma alusão direta à ‘elite intelectual’ da cidade, o desfile apresentou os imortais da Academia Maringaense de Letras em um carrinho de mão. Sem entrar no mérito particular das duas questões, o tema parece que não convenceu nem mesmo a prefeitura, haja vista a escapada do prefeito-vice Pupin do palanque antes mesmo do encerramento do desfile.

#cansei

#cansei

No folder do evento, vê-se a descrição das alas temáticas. Em um grande trabalho editorial, classificaram o que sempre fez parte de qualquer desfile cívico como ala temática: grupos étnicos, de esportes, de artes e de culturas populares foram divididos em ‘culturas’, renomeando e aproveitando o que já tinha. Afinal, o que um sistema classificatório não pode fazer?

As mudanças no desfile deste ano realizadas pela nova secretaria parecem que esfriaram os ânimos, do público e da prefeitura. Foi visto menos carros alegóricos produzidos pela prefeitura, compensados por mais alegorias de instituições e organizações públicas e privadas. Aliás, o trabalho da prefeitura foi parco e pouco visto na avenida. Tanto que este texto se encerra aqui, não tendo mais nada a acrescentar (a menos que haja anunciantes que queiram usar o espaço).

Da mania de escolher

06/05/2014

Aquele momento difícil, em que você se vê obrigado a escolher um sapato em uma vitrine fartamente alimentada. Que critérios utilizar para a escolha? Como diminuir a incerteza? Você experimenta o máximo de modelos possível para não restar dúvidas e descarta, seguindo vários critérios, os que não se adequam a esses parâmetros. Independentemente da escolha, a única certeza que você tem é que vai se arrepender e pensar no outro calçado durante meses. Você pensa que o ideal é utilizar um calçado durante dias, depois trocá-lo pelo outro. Em quantas situações você não quis experimentar uma vida antes de uma derradeira decisão? É exatamente o que Irina McGovern fez em O mundo pós-aniversário (2007), romance da escritora estadunidense Lionel Shriver.

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Irina é uma ilustradora de livros infantis que tem uma invejável e sólida vida matrimonial com Lawrence Trainer, um homem intelectual e seguro de suas convicções que trabalha para um renomado centro de estudos estratégicos. Os dois ostentam uma vida exemplar, uma relação confiante e respeitosa, com direito a pequenos agrados no fim do dia e longas conversas sobre a rotina de cada um. Uma vida tranquila para qualquer padrão, não fosse o desejo incontrolável que atingiu Irina: beijar o amigo do casal, Ramsey Acton, um ilustre jogador de sinuca.

É a partir desse ponto do romance que Irina desbrava suas chances de permanecer com sua vida estável ao lado de Lawrence ou se aventurar junto a Ramsey. Através de capítulos intercaláveis, a personagem pondera os desfechos de suas ações quando escolhe um ou outro.

Para muito além de um jogo de perdas e ganhos, o questionamento de Irina é: em um momento em que tenho duas possibilidades igualmente interessantes, Lawrence e Ramsey, que vida escolher? Dois homens tão diferentes que podem me dar vidas tão intensas, cada um a seu modo, como me decidir?

Em primeiro lugar, Irina não julga o perfil de seus amantes por conceitos como carinho, atenção, educação, afinidade, intimidade. Seria leviano de sua parte, já que os dois são igualmente admiráveis e dignos de sua escolha. É evidente que sua vida toma caminhos diferentes em cada escolha, mas em nenhum momento são plenamente autônomas. As “vidas possíveis”, por mais que estejam em capítulos alternados, se entrecruzam, estão em relação. O ideal binário do julgamento maniqueísta não se aplica à vida de Irina. Eis uma das maiores riquezas do romance.

Engana-se quem acha que a natureza da escolha é algo simples e passível de resposta exata. Escolher significa, necessariamente, optar pelo A e desistir do B. Irina nos diz que, apesar dessa última afirmação ser uma evidência, o B sempre estará subentendido em A, já que esse não existe em absoluto, só em relação (é A porque existe o B). Se Irina diz que ama seu marido Lawrence, é porque não ama tanto seu amante Ramsey, mas o admira. O mesmo acontece nos capítulos alternados. Não se trata de escolher o branco ou o preto; é a confusão do listrado.

É como a literatura: quando chega ao rio, percebe que é beira.

WhatsApp é só Leite Moça

23/02/2014

Nos dicionários, dar nome aos bois é fundamental. Encontramos acepções certeiras e convenientes ao que procuramos. No entanto, no dia-a-dia, não paramos para pensar o que podem significar as coisas que nos cercam. Seguimos o fluxo de significações que está por aí. Não pensamos na fabricação de nossos gadgets, como a internet chega até nós ou sobre os resultados que o buscador não mostrou. São questões perigosas, pois as respostas podem destruir significações complexas que nós, usuários, temos desse mundo digital.

Quero dizer, significamos tudo o que nos cerca, mesmo sem querer. Mas nem sempre somos os protagonistas desse processo. Algumas instituições assumem esse papel em nosso lugar: igreja, família, amigos e a Mônica Waldvogel. O caso exemplar para a construção de sentidos sobre a atual ordem tecnocrática é o mercado digital.

A evidência de que tecnologia e mercado andam juntos é erroneamente clara. Se considerarmos que o Vale do Silício (EUA) é povoado por empresas, e que as inovações são produtos a serem patenteados, equacionamos tranquilamente que os avanços humanos vêm com código de barras. Confundimos a incrível capacidade de navegação virtual com o serviço Google. É importante ressaltar: o Google promoveu uma mudança humana significativa, isso me parece incontestável. No entanto, temos que ter clareza nos nomes que demos às coisas. Google é a empresa de serviços que media o acesso à tecnologia. Sendo uma empresa (ou produto), é sujeita a variações, instabilidades financeiras e erros administrativos. Está sujeita também a especulações e monopólio.

Na semana passada, a compra do WhatsApp pelo Facebook deflagrou o rosto desse mercado. Por um lado, livros, palestras, tutoriais e cursos sobre como utilizar as ferramentas do FB para uma campanha publicitária de sucesso, fazendo crer que a mídia social é, em verdade, a própria rede. Do outro lado, uma negociação de 16 bilhões de dólares articulada como toda relação comercial, como qualquer empresa num mercado financeiro cobiçoso por crescimentos e lucros. Muitos podem dizer que toda a tecnologia surge como atributo comercial. Sim, sem dúvida. Mas a especificidade do mercado digital de hoje é que as empresas lidam com uma inovação ‘vestível’, processos que fazem crer serem orgânicos, e os são. Todavia, essa tecnologia só está disponível no sistema Android e iOS. Ou seja, a inovação humana que nos levou ao bate-papo instantâneo em qualquer lugar se tornou a mesma coisa que o bate-papo instantâneo em qualquer lugar. Tecnologia e produto são um só.

WhatsApp: questão de mercado.

WhatsApp: questão de mercado

O discurso de alinhar tecnologia e mercado é fomentado por revistas especializadas, blogueiros, escolas de treinamento, cursos universitários e, claro, pelas próprias empresas. Nenhuma campanha publicitária do FB é sobre computador, internet ou tecnologia. Longe disso, mostra a conexão humana, os laços que unem uma família ou um par de namorados. Como toda publicidade, a esfera da produção passa longe. O FB torna mágico o acesso ao seu produto, como é mágica a compra de uma lata de Leite Moça. No entanto, se a Nestlé declarar falência, o leite condensado continuará existindo. Isso também acontece com os produtos tecnológicos e serviços virtuais.

Entender a tecnologia como conceito humano me parece radicalmente diferente de concebê-la como acumulado mercadológico de produtos e serviços que se baseiam em tais conceitos.

Nessa altura da discussão, algumas questões são urgentes: se a Microsoft, Google, Facebook ou a Apple insistirem em monopólios tecnológicos, qual o futuro da tecnologia digital? Qual o real valor de ‘inovação’? Em um contexto em que empresa é confundida com tecnologia, Eike Batista certamente tem muito a ensinar a Mark Zuckerberg.

Desconfie do CONAR

07/02/2014

Nessa semana, o Conselho Nacional de Autorregulação Publicitária (CONAR) começou a veicular sua nova campanha para TV e mídia impressa. A campanha usa a “mania de criticar” para ironizar os excessos de reclamações insignificantes que a entidade recebe. A estratégia é reforçar a confiança que o público tem em relação ao conselho.

A ideia da campanha parte de comportamentos comuns, sobretudo, nas mídias sociais: a reclamação, ou a mania crítica. Em uma das propagandas televisivas, um palhaço que anima uma festa de aniversário infantil é surpreendido por um rapaz que o repreende por usar peruca azul como recurso visual para atrair as crianças e fazer apologia à violência devido ao seu codinome, Peteleco. No segundo vídeo, de maneira mais emblemática, um casal que se serve de uma feijoada completa interrompe o garçom por supostos abusos: o arroz e o feijão servidos separados representam a segregação e a couve é o único prato feminino da refeição, caso típico de sexismo.

Já nas mídias impressas, a referência às mídias sociais é mais evidente: há frames de vídeos publicitários com destaque aos comentários críticos que o tom irônico da campanha faz supor serem ridículos.

CONAR - AlmapBBDO

CONAR – AlmapBBDO

Quando os vídeos da campanha foram para o Youtube, a repercussão foi reverberante: uma multiplicação exponencial de reclamações e críticas tão fundamentadas quanto teorias pós-modernas. As já clássicas ‘chupa esquerdistas’ e ‘mimimi feminista’ estavam presentes. ‘Corrupção’, ‘liberdade de expressão’, ‘Danilo Gentili’ e ‘fascismo’ foram as mais recorrentes. Infelizmente, a arena é sempre montada para dois oponentes.

Como o próprio nome indica, o CONAR é um órgão privado de autorregulação. Surgiu com o propósito de barrar a censura prévia da ditadura militar no final dos anos 70. Ou seja, a prática do mercado regular a si próprio pareceu a melhor resposta à época. O regime militar representava o Estado, que era opressor e intransigente. O CONAR era ‘do lado de lá’, da sociedade civil que lutava por direitos e liberdade. Havia dois oponentes na arena. No entanto, hoje, esse maniqueísmo perdeu a lógica.

Os membros diretores do CONAR são publicitários (que produzem propagandas), donos de agências (que vendem propagandas) e diretores de veículos de comunicação (que veiculam propagandas). Supostos ‘membros da sociedade civil’ nada mais são do que representantes de entidades afins. Todos escolhidos de maneira maçônica. Parece-me ingenuidade pensar que tais autoridades regulamentem a produção publicitária de maneira justa e idônea.

Segundo a campanha, somente o CONAR sabe o que é melhor para a sociedade (o slogan é: ‘Confie em quem entende’). Ora, Costa e Silva entendia que o AI-5 era melhor para a sociedade. E parte da sociedade confiava de fato. Quero dizer, quando discursos imperativos são deflagrados, naturalmente surge a imposição, a ausência da plena liberdade. O que a campanha do CONAR deflagrou foi a imposição de seu entendimento sobre outros. Quando disse que maniqueísmos do tipo repressão x liberdade, feminismo x machismo, comunista x neoliberal não fazem mais sentido, é que, atualmente, conselhos autorreguladores nada mais são do que instrumentos para proteger interesses privados, e não públicos. Estão todos do mesmo lado da arena: ditadores querendo calar a imprensa e um mercado querendo calar a opinião pública. É cálice dos dois lados da arena.

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