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WhatsApp é só Leite Moça

23/02/2014

Nos dicionários, dar nome aos bois é fundamental. Encontramos acepções certeiras e convenientes ao que procuramos. No entanto, no dia-a-dia, não paramos para pensar o que podem significar as coisas que nos cercam. Seguimos o fluxo de significações que está por aí. Não pensamos na fabricação de nossos gadgets, como a internet chega até nós ou sobre os resultados que o buscador não mostrou. São questões perigosas, pois as respostas podem destruir significações complexas que nós, usuários, temos desse mundo digital.

Quero dizer, significamos tudo o que nos cerca, mesmo sem querer. Mas nem sempre somos os protagonistas desse processo. Algumas instituições assumem esse papel em nosso lugar: igreja, família, amigos e a Mônica Waldvogel. O caso exemplar para a construção de sentidos sobre a atual ordem tecnocrática é o mercado digital.

A evidência de que tecnologia e mercado andam juntos é erroneamente clara. Se considerarmos que o Vale do Silício (EUA) é povoado por empresas, e que as inovações são produtos a serem patenteados, equacionamos tranquilamente que os avanços humanos vêm com código de barras. Confundimos a incrível capacidade de navegação virtual com o serviço Google. É importante ressaltar: o Google promoveu uma mudança humana significativa, isso me parece incontestável. No entanto, temos que ter clareza nos nomes que demos às coisas. Google é a empresa de serviços que media o acesso à tecnologia. Sendo uma empresa (ou produto), é sujeita a variações, instabilidades financeiras e erros administrativos. Está sujeita também a especulações e monopólio.

Na semana passada, a compra do WhatsApp pelo Facebook deflagrou o rosto desse mercado. Por um lado, livros, palestras, tutoriais e cursos sobre como utilizar as ferramentas do FB para uma campanha publicitária de sucesso, fazendo crer que a mídia social é, em verdade, a própria rede. Do outro lado, uma negociação de 16 bilhões de dólares articulada como toda relação comercial, como qualquer empresa num mercado financeiro cobiçoso por crescimentos e lucros. Muitos podem dizer que toda a tecnologia surge como atributo comercial. Sim, sem dúvida. Mas a especificidade do mercado digital de hoje é que as empresas lidam com uma inovação ‘vestível’, processos que fazem crer serem orgânicos, e os são. Todavia, essa tecnologia só está disponível no sistema Android e iOS. Ou seja, a inovação humana que nos levou ao bate-papo instantâneo em qualquer lugar se tornou a mesma coisa que o bate-papo instantâneo em qualquer lugar. Tecnologia e produto são um só.

WhatsApp: questão de mercado.

WhatsApp: questão de mercado

O discurso de alinhar tecnologia e mercado é fomentado por revistas especializadas, blogueiros, escolas de treinamento, cursos universitários e, claro, pelas próprias empresas. Nenhuma campanha publicitária do FB é sobre computador, internet ou tecnologia. Longe disso, mostra a conexão humana, os laços que unem uma família ou um par de namorados. Como toda publicidade, a esfera da produção passa longe. O FB torna mágico o acesso ao seu produto, como é mágica a compra de uma lata de Leite Moça. No entanto, se a Nestlé declarar falência, o leite condensado continuará existindo. Isso também acontece com os produtos tecnológicos e serviços virtuais.

Entender a tecnologia como conceito humano me parece radicalmente diferente de concebê-la como acumulado mercadológico de produtos e serviços que se baseiam em tais conceitos.

Nessa altura da discussão, algumas questões são urgentes: se a Microsoft, Google, Facebook ou a Apple insistirem em monopólios tecnológicos, qual o futuro da tecnologia digital? Qual o real valor de ‘inovação’? Em um contexto em que empresa é confundida com tecnologia, Eike Batista certamente tem muito a ensinar a Mark Zuckerberg.

Desconfie do CONAR

07/02/2014

Nessa semana, o Conselho Nacional de Autorregulação Publicitária (CONAR) começou a veicular sua nova campanha para TV e mídia impressa. A campanha usa a “mania de criticar” para ironizar os excessos de reclamações insignificantes que a entidade recebe. A estratégia é reforçar a confiança que o público tem em relação ao conselho.

A ideia da campanha parte de comportamentos comuns, sobretudo, nas mídias sociais: a reclamação, ou a mania crítica. Em uma das propagandas televisivas, um palhaço que anima uma festa de aniversário infantil é surpreendido por um rapaz que o repreende por usar peruca azul como recurso visual para atrair as crianças e fazer apologia à violência devido ao seu codinome, Peteleco. No segundo vídeo, de maneira mais emblemática, um casal que se serve de uma feijoada completa interrompe o garçom por supostos abusos: o arroz e o feijão servidos separados representam a segregação e a couve é o único prato feminino da refeição, caso típico de sexismo.

Já nas mídias impressas, a referência às mídias sociais é mais evidente: há frames de vídeos publicitários com destaque aos comentários críticos que o tom irônico da campanha faz supor serem ridículos.

CONAR - AlmapBBDO

CONAR – AlmapBBDO

Quando os vídeos da campanha foram para o Youtube, a repercussão foi reverberante: uma multiplicação exponencial de reclamações e críticas tão fundamentadas quanto teorias pós-modernas. As já clássicas ‘chupa esquerdistas’ e ‘mimimi feminista’ estavam presentes. ‘Corrupção’, ‘liberdade de expressão’, ‘Danilo Gentili’ e ‘fascismo’ foram as mais recorrentes. Infelizmente, a arena é sempre montada para dois oponentes.

Como o próprio nome indica, o CONAR é um órgão privado de autorregulação. Surgiu com o propósito de barrar a censura prévia da ditadura militar no final dos anos 70. Ou seja, a prática do mercado regular a si próprio pareceu a melhor resposta à época. O regime militar representava o Estado, que era opressor e intransigente. O CONAR era ‘do lado de lá’, da sociedade civil que lutava por direitos e liberdade. Havia dois oponentes na arena. No entanto, hoje, esse maniqueísmo perdeu a lógica.

Os membros diretores do CONAR são publicitários (que produzem propagandas), donos de agências (que vendem propagandas) e diretores de veículos de comunicação (que veiculam propagandas). Supostos ‘membros da sociedade civil’ nada mais são do que representantes de entidades afins. Todos escolhidos de maneira maçônica. Parece-me ingenuidade pensar que tais autoridades regulamentem a produção publicitária de maneira justa e idônea.

Segundo a campanha, somente o CONAR sabe o que é melhor para a sociedade (o slogan é: ‘Confie em quem entende’). Ora, Costa e Silva entendia que o AI-5 era melhor para a sociedade. E parte da sociedade confiava de fato. Quero dizer, quando discursos imperativos são deflagrados, naturalmente surge a imposição, a ausência da plena liberdade. O que a campanha do CONAR deflagrou foi a imposição de seu entendimento sobre outros. Quando disse que maniqueísmos do tipo repressão x liberdade, feminismo x machismo, comunista x neoliberal não fazem mais sentido, é que, atualmente, conselhos autorreguladores nada mais são do que instrumentos para proteger interesses privados, e não públicos. Estão todos do mesmo lado da arena: ditadores querendo calar a imprensa e um mercado querendo calar a opinião pública. É cálice dos dois lados da arena.

Enquanto Tudo Derrete

02/02/2014

X é uma promissora cidade no interior do estado de Curitiba. Com apenas 66 anos de idade, já é considerada, segundo a revista Olhe, uma das melhores cidades brasileiras para se viver, com invejáveis índices de desenvolvimento humano e social. Possui um dos maiores pólos de plantio de soja do país, exportando para todo o Mercosul, China, Índia e Turquia. É também da cidade X uma das mais conceituadas universidades do país. A construção civil se desenvolve de maneira olímpica, fazendo da cidade X um riquíssimo canteiro de obras. A cidade X goza de uma tranquilidade atípica para os padrões brasileiros. Não há notícias de assassinatos, roubos, estupros e suicídios. A cidade X é, como metaforizou o poeta popular, uma casa no campo, mas com a positividade que a tecnologia, a indústria e o comércio trazem. Porém, quem olha a verde e proeminente cidade X não imagina as misteriosas histórias que a rondam.

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Cidade X. foto: Gabriel Santin

Tudo começa no longínquo ano de 1932, época em que o território do que se entende hoje como a cidade velha foi palco de uma sangrenta batalha entre os indígenas nativos e os fazendeiros colonizadores. Na batalha, a população indígena foi dizimada e seus corpos foram enterrados no vermelho solo da cidade X. Ao longo das décadas seguintes, as complexas ocas foram paulatinamente sendo substituídas por casas seriadas de madeira com marquises; os rituais substituídos por paradas na Avenida dos Banguelas; as histórias ao redor da fogueira por filas nas casas de dança. Mudanças que muito agradaram os novos habitantes da cidade X, mas não os antigos nativos. No início da década de 1950, um fenômeno começou a preocupar a pacata população da cidade X: os termômetros começaram a se abalar. De setembro de 1951 a janeiro do ano seguinte os termômetros aumentaram 35% a média de temperatura em relação a décadas passadas. Ao mesmo tempo, a chuva ficou rara na cidade X. Não choveu, efetivamente, de abril de 1952 a outubro de 1959. Chuviscos, quando caíam, faziam o ambiente abafar. Chegando aos anos de 1960, o comércio fazia fortuna com os recém chegados ar condicionados domésticos. Com o passar dos anos, a situação virou pandemônio, e a ciência foi desengavetada para ajudar na compreensão do fenômeno. Em fevereiro de 1969, muitos estudos foram feitos pelos geólogos, biólogos, químicos, físicos e astrônomos da universidade local, mas nada parecia motivar tal situação adversa. O tempo passava lento devido a sensação de dilatação espacial, enquanto os estudos eram feitos, em vão. Em um dos verões de 1970, o trabalho dos cientistas, já desmotivados, foi misteriosamente interrompido. Um acidente matou toda a comitiva científica que estava instalada na Avenida Nacional, a principal da cidade X. Tratou-se, segundo o comandante do corpo de bombeiros, de uma autocombustão da tenda em que os cientistas estavam reunidos desde o início dos estudos. Um clima de tensão tomou conta da população, que começou a tomar medidas drásticas e desesperadas como se reunir em baixo dos coqueiros da praça da igreja central, comprar carros para evitarem a caminhada, adquirir cotas em clubes com piscinas coletivas e passear em supermercados com clima refrigerado. Na década de 1970 os primeiros prédios residenciais despontaram pela cidade X, o que obrigou as construtoras a cavarem grandes fossos na vermelha terra e estacarem os pilares de concreto que sustentariam os prédios. Para surpresa e desdém dos cidadãos da cidade X, foram encontradas ossadas dos nativos indígenas que haviam sido enterradas ali pelos colonizadores rurais. Nessas, estava cravada, na língua nativa, uma maldição tribal que condenava o povo colonizador a sofrer com o calor eterno. Com riqueza de detalhes e traduzida por exímios linguistas da universidade X, a maldição praguejava ainda sobre o movimento das nuvens que, ao chegarem a 10 km da cidade X, desviariam para outras regiões. Extinguiria também a distinção entre inverno e verão, sendo essa uma noção preservada apenas nos livros didáticos. De repente, como em um retorno hipnótico, a cidade X se tornou mais tranquila e os anos passaram com mais leveza, mesmo com o vapor do asfalto ondulando pelas ruas e o oxigênio entrando quente nas narinas sem nenhuma explicação. Desde o fatídico episódio, os habitantes da cidade X, crentes fervorosos do totem uno, ficaram mais confortados e o clima passou a não ser mais um problema, já que agora tinham algo a balizar suas vidas: um mito.

“Esse é o meu companheiro”

27/01/2014

O ato de nominar é, em grande parte, executado de forma muito tranquila. Chamamos de xícara o recipiente de líquidos que levamos à boca. Não temos problema algum em colocar nome nas coisas. Nominalizamos até mesmo o que não sabemos. Chamamos de amor a confusão que sentimos por outrem; ou de Deus a força ou entidade que conduz a existência. É quase natural. Nome e coisa se fundem. No entanto, os nomes são invenções para que a comunicação seja possível. Se cada indivíduo tiver um nome para xícara, pedir uma xícara de açúcar ao vizinho seria uma tarefa épica.

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Sim, o mesmo pão.

Em ‘Amor à Vida’, atual novela global das 9, os casais homossexuais são nominalizados como ‘companheiros’: Niko queria ter um filho com seu companheiro, Eron. Não é namorado, nem marido. É companheiro. Escolha óbvia para não atingir certa parcela da audiência que aceita assistir dois homens se abraçando intimamente, ou segurando as mãos, mas não aceita nominalizar isso. A palavra causa medo.

No entanto, diferentemente do que se pensa, essa escolha é integralmente coerente. A palavra companheiro deriva do latim “cum panis”, aquele com quem dividimos o pão. Dois homens ou duas mulheres que decidem viver juntos são, de fato, companheiros. Companheiro faz companhia, é cúmplice. Colabora com sua presença para a plenitude do outro. Confia com tanto ardor, com tamanha generosidade, que o convida para sentar à mesa e dividir o pão (quem está pensando nas sagradas escrituras é você).

Independentemente do prefixo, todo casal almeja dividir o pão. Desse modo, os casais homossexuais são os que mantêm o sentido romântico do casamento?

Calçada do Jornalismo

15/12/2013

Hollywood produziu muitas imagens identitárias ao longo de sua hegemonia na cinematografia mundial. A felicidade branca nos musicais, o romantismo pesado das mulheres, o homem rude do oeste estadunidense, o estrangeiro fresco europeu, o soldado vencedor (mesmo na derrota). Dentre elas, a imagem construída do jornalista é peculiar.

No longa metragem A Montanha dos Sete Abutres (Ace in the Hole, EUA, 1951) do diretor Billy Wilder, um jornalista sedento por reconhecimento profissional é capaz de ultrapassar os limites éticos rogados por qualquer manual de jornalismo. Charles Tatum, o veterano jornalista, tentando alcançar o ápice de sua carreira, se esbarra em uma pauta que pode alavancá-lo: um mineiro preso em uma caverna indígena nos arredores no Novo México. Tatum passa a fazer a cobertura exclusiva do resgate e acaba promovendo um espetáculo com a delicada situação. Toda a imprensa se volta para a caverna, mas o personagem que se sobressai é Tatum, tido como um herói. O desenrolar da trama não é de tal modo heroico: o prolongamento do resgate, promovido por Tatum a fim de angariar mais audiência para sua pirotecnia, acaba por sufocar o mineiro e levando-o a morte.

Tal imagem nefasta do jornalista em filmes de Hollywood é recorrente: The Front Page (1931); Citizen Kane (1940); All the President’s Men (1976). Mas por que as lentes de Hollywood representam o profissional do jornalismo com tanta aspereza e negatividade?

O que é evidente na maioria dessas películas é a recorrência da busca pelo estrelato, custe o que custas; seja para alcançar o topo da carreira, conseguir favores políticos, enriquecer ou, resumidamente, ter poder. Talvez podemos enxergar nessas construções uma identidade comum do jornalista, o poderoso detentor da informação. Ele é aquele que sabe o que foi discutido na plenária da câmara, que assistiu o acidente de avião, a vista do Papa e do FHC e nos passa tudo por meio das escrituras (jornal, TV, rádio, internet).

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Tal poder de ser a voz do fato, o informante que está em todos os lugares simultaneamente, entrega ao jornalista o poder de ser o nosso olho e o nosso ouvido. Nesse sentido, o trabalho jornalístico é ordenar, através da linguagem, o caos. Premissa contrária ao trabalho artístico que, apesar de se valer de linguagens, não pretende ordenar. Ou seja, a arte bagunça a sala que o jornalismo acabou de arrumar.

Talvez a implicância dos cineastas hollywodianos com os jornalistas esteja ligada ao dirscurso explícito do jornalismo em trazer a unidade de um mundo plural. A contribuição dos cineastas, nesse sentido, seria a de trazer as relações entre unidades, o dinamismo de um mundo em transformações, as linhas que correm de um ponto ao outro, e não as de um ponto que vai da caneta do jornalistas ao papel da redação.

Amor e Sexo II

08/10/2013

Já foi falado nesse blog sobre o suposto caráter revolucionário do oscilante programa global Amor e Sexo. Agora, a atração chega à sua última temporada tentando inovar a revolução, mas parece que a receita da emissora pede conservantes além da medida.

O primeiro programa dessa última temporada foi ao ar na noite da última quinta-feira (3). O tema central era, para o espanto da minoria, nudez. Logo no início, alguns integrantes da equipe do programa desfilaram nus no palco. Como a própria direção do programa disse, uma nudez “política”. A atração foi rápida, com exibição do nu frontal em flashes. Alguns sites e blogs noticiaram o tal progressismo da Globo como uma grande audácia. No entanto, pouco se repercutiu nas mídias sociais, sendo a nudez, para aqueles usuários, menos relevante do que Zeca Camargo dançando no Programa do Jô. Por que hoje os canais tradicionais de televisão não conseguem mais chocar o público com o corpo nu?

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Suposta nudez no programa Amor e Sexo

Em primeiro lugar, o corpo passou por uma espécie de pasteurização com a sua reprodução industrial. Esquenta-o com apelos incisivos à potência, ao erotismo, à violência, ao descarte para então esfriá-lo com a reprodução desses valores em alta escala. Já é comum a constatação que os “jovens estão cada vez mais precoces” devido ao alto estímulo sexual. O corpo, para um adolescente de 13 anos, não é mais um objeto de desejo escondido em lingeries, mas sim um monumento disponível aos olhos a qualquer instante (programas de auditório) e em qualquer lugar (internet). Não quero interpretar aqui as possíveis implicações nefastas que isso pode trazer ao desenvolvimento social humano, apenas indicar prováveis caminhos que nós mesmos estamos a traçar.

Em segundo lugar, o discurso de naturalizar o corpo é interpretado de maneira aleatória. A ideia de corpo biológico, com sua anatomia e organicidade, é preservada e estendida à ideia de corpo sensual, com seus sentidos e gestualidades. A evidência dessa naturalização pode ser vista justamente na atração inicial de Amor e Sexo: o corpo deve ser habitual, algo tão comum quanto nossas roupas ou o penteado de cabelo que usamos. Ora, algo está errado: se o corpo é, simultaneamente, sentidos e orgânico, físico e gestual, biológico e sensual (para dizer o mínimo), por que deve ser “livre”, “normal”, “sem censura”, “despudorado”?

Fica claro que o que está em jogo é a definição de corpo e seu uso. Em um programa relacionado a sexo, o corpo é instrumento, por mais que Fernanda Lima diga o contrário. Desse modo, querer neutralizar o corpo num ambiente em que é necessária sua instrumentalização me parece um grande equívoco. As pessoas nuas no palco surgiram de luxuosas plumas ostentadas por modelos engravatados, como em um cabaré. O corpo biologicamente nu estava envolto em sensualidades.

Por fim, como no texto citado no início, continuo a me questionar sobre a pertinência do sexo em programas televisivos. A intimidade como mídia vem sendo amplamente difundida nos dominicais, nos especiais jornalísticos e nos entretenimentos televisivos. No entanto, trata-se de uma intimidade caricata, reduzida a funções a serem executadas. Falar de sexo em programas como Amor e Sexo é elencar ações a serem feitas pelo sujeito a fim de conquistar seu objetivo. Assim, sexo pode ser ensinado.

E o verbo se fez carne.

Despertou, mas continua com sono

21/06/2013

O que começou como uma reivindicação pela diminuição da tarifa do transporte público na cidade de São Paulo se tornou um enorme organismo, quase incontrolável. A cada noite de manifestação, e conforme os protestos se estendiam a outras cidades, novas pautas surgiam e eram adaptadas a realidades locais. A unidade dessas pautas parece ser o dinheiro público e a corrupção. A atual Copa das Confederações e a Copa do Mundo do próximo ano estão sendo criticadas pelos manifestantes, com o argumento de que os suntuosos investimentos direcionados aos eventos são incompatíveis com a precária realidade dos serviços públicos brasileiros. Nesse cenário nitidamente confuso, Maringá parece ser um caso exemplar para algumas considerações do movimento nacional. A noção de confusão, aliás, é o que cerca a incompreensão de quem não está nas ruas. O aspecto desmembrado e fragmentado das manifestações esconde, na verdade, um manual de como não seguir manuais.

No ato da última terça-feira (18), em Maringá, um trio elétrico foi alugado pela organização para conduzir a marcha pelo roteiro previamente estabelecido. No meio da aglomeração de centenas de pessoas em frente ao terminal rodoviário, bandeiras de partidos políticos começaram a balançar. A organização, de cima do trio elétrico, preferiu não se pronunciar. No entanto, o grito de ‘sem partido’ ganhou força entre os manifestantes para que as bandeiras fossem abaixadas, sem sucesso. O trio elétrico começou a sua trajetória em meio ao uníssono ‘sem partido’. A passeata não completou nem uma quadra, e alguns manifestantes exigiram que as bandeiras partidárias se abaixem, alguns usando da força. Todos pararam e a organização, no alto do trio elétrico, pediu para que os partidários guardassem as bandeiras. Neste momento, a grande maioria dos manifestantes virou as costas para o trio elétrico e caminhou na direção contrária do planejado. Decidiram o novo trajeto a cada esquina, construindo a rota no decorrer da caminhada. A única coerência que pareciam seguir é desviar das vias que a SETRAN interditara e optar também por caminhar na contramão dos carros.

Essas ações tomadas pelos manifestantes deflagraram a unidade desse fenômeno que parece não ter unidade. A organização quis que jovens de classe média criados com a internet e com a tecnologia seguissem um trio elétrico. Jovens que cresceram tendo a liberdade familiar e social plena seguindo um trio elétrico e repetindo palavras de ordem vindas de um líder não parece ser muito coerente. Seguem sim o discurso que ecoam das redes sociais, do que seus contatos estão sugerindo por seus perfis, no caso, #iremprarua. Esses jovens não são guiados, seguem o fluxo. Não é o caso de dizer que ‘não são mais conduzidos’ ou que ‘não seguem mais regras’. A diferença é que a figura do líder, comum nas manifestações sindicais e sociais de décadas (e séculos) passados, é trocada por um uma figura anônima, nebulosa, gigante e dinâmica. Ela é articulada em função de inúmeros interesses e construída por inúmeros atores sociais. Não há mais o líder, mas sim energias que compõe um discurso. Ninguém precisa dizer que a PEC-37 é nociva, que o Feliciano é perigoso, que o Renan deve renunciar e que a Globo é mentirosa. A ‘opinião comum’ se encarrega dessa tarefa, de dizer aos manifestantes o que bradar nas ruas, do que é aceitável ou politicamente correto. Assim, é evidente que, apesar dos dizeres apartidários, há argumentos comuns e que dão coerência ideológica aos manifestos.

A onda de descontentamento público serviu também para mostrar, mais uma vez, o caráter fortemente ideológico dos veículos de comunicação no Brasil. Que a neutralidade e ética jornalística são bibelôs em faculdades de Jornalismo todos sabem. O que se evidenciou são as posições claramente ideológicas dos meios. Houve até portal de notícias promovendo enquete sobre as eleições de 2014, em um movimento claramente didático de mobilizar a opinião em um contexto tão delicado aos partidos. Sem contar nos colunistas que nomeiam personagens inexistentes e desenham cenários plásticos para a realidade.

A violência foi um dos maiores argumentos de desvalidar as manifestações. Inúmeros confrontos, atos de violência e depredações aconteceram de fato. No entanto, a gênese do movimento não era utilizar a violência, muito menos o confronto corporal. A violência praticada por alguns manifestantes, no interior do movimento, era amplamente desvirtuada pela maioria, sendo que os próprios manifestantes cerceavam possíveis atos de depredação e violência. Ontem (20), no Rio de Janeiro, quando manifestantes avistaram um ferido, logo formaram um cordão de isolamento para os devidos socorros. Em Maringá, na terça-feira (18), quando alguns manifestantes tentaram incendiar um ônibus, outros agiram rapidamente e apagaram o fogo que começara no interior do veículo. Como toda grande mobilização, o controle de quem dela participa é impossível, surgindo sempre quem opte pelo confronto violento e corporal. No entanto, tais ações (que não representam o argumento dos protestos) não devem deslegitimar as manifestações. A solidariedade amplamente vista nas cidades deveria ser o maior dos argumentos.

A ação militar também foi criticada e a discussão sobre o abuso violento do poder policial no Brasil surge novamente. É impossível discutir a necessidade ou não do uso de força policial nos protestos, já que esses aconteceram em centenas de cidades e afirmar que todas tiveram como tônica o discurso pacífico seria ingenuidade. Muito se discutiu sobre a natureza e especificidade da democracia brasileira, na qual a liberdade de expressão pública é altamente cerceada. Ao que tudo indica, manifestos que acontecem em locais públicos são, por tradição, interpretados como sujeira, baderna ou perturbação da ordem pública, como dita a lei, e por isso devem ser controlados. Dito de outro modo, manifestações públicas não podem acontecer, pois a ordem no Brasil já foi instaurada há tempos e o descontentamento social não possui mais nenhum cabimento. Isso autoriza o uso da força física contra quem perturba essa ordem.

Assim, a onda recente de manifestos no Brasil é uma moeda com muito mais de duas faces; entendê-la por completo é impossível. Não conseguimos ser completamente contra, nem completamente a favor das manifestações pela complexidade que elas atingem a cada dia. Seus resultados talvez apareçam, talvez não hajam. É cedo para afirmações, mas podemos supor um 2014 com muitas surpresas.

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